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Ficam por pagar 10 Mil Euros por mês em cada Farmácia
Segunda, 14 Março 2011 00:00
Crise. Doentes pedem para saldar dívida dos medicamentos quando recebem a reforma ou o ordenado ou deixam de levar medicamentos para casa. Farmacêuticos dizem que pedidos para vender fiado têm disparado.

Joaquina (nome fictício) tem mais de 70 anos e vive sozinha. Todos os meses chega-lhe a casa um vale da segurança social de 260 euros que troca na farmácia por dinheiro vivo, depois de pagar uma pequena parte da dívida que vai acumulando. Uma caixa de um medicamento para a tensão, outra para o coração e uma pomada para as pernas. Tudo em genéricos que são mais baratos. Mas mesmo assim são entre 30 e 50 euros. Lá paga uma parte da conta pendurada, mas deixa a restante para uma próxima vez. Uma conta que não pára de crescer e que muito dificilmente um dia conseguirá liquidar.

Por mês, as farmácias têm, em média, 10 mil euros “presos” em medicamentos fiados aos doentes. São quase sempre clientes habituais que prometem pagar no final do mês ou quando a pensão chega a casa. Um número que tem vindo a aumentar com as dificuldades económicas, especialmente nos últimos meses. “O volume de crédito médio mensal por farmácia é de 10 mil euros. Os doentes dizem que pagam no final do mês e quando receberem as reformas. São pessoas com pensões pequenas, em situações de desemprego, casais que têm filhos e muitas despesas”, diz ao DN João Cordeiro, presidente da Associação Nacional de Farmácias (ANF).

Joaquina é um caso entre muitos. Situação limite que as farmácias não podem deixar de ajudar. “Recebemos cada vez mais pedidos de pessoas, clientes fiéis, para pagar ao final do mês. Têm reformas que mal chegam para pagar a renda e um litro de leite por dia. Por norma são contas que ficam entre os 25 e os 30 euros”, conta Vítor Domingues, da Farmácia do Marquês, em Lisboa.

Isaura Martinho, da Farmácia de Marvila, sabe bem o que é vender fiado. “Se nos entra uma pessoa com uma receita com um antibiótico para uma criança nós não vamos deixar de o vender. Não recusamos, mesmo sabendo que podemos não ver o dinheiro. As pessoas não têm capacidade para comprar. Esta é uma zona complicada e em tempo de crise é catastrófico”, diz ao DN, revelando que também a farmácia está a passar por tempos difíceis. “Temos a corda na garganta. Tive de fazer um empréstimo de apoio à tesouraria e estou em risco de deixar de fazer trabalho social”, conta.

Mesmo assim, as fichas de clientes e a lista de dívidas na parede vão aumentando. “Para não abrir uma ficha coloco aqui os papéis. Tenho ficha de mais de 300 cliente”, conta. Pelo menos, 250 pessoas têm dívidas com a farmácia. “Tanto podem ir dos cinco aos 200 euros. As pessoas pagam aos poucos. Tenho casos ainda de 2009, mas desde Outubro nota-se um aumento das dívidas. Quando recebem a pensão ou o abano de família pagam cinco ou dez euros e o resto fica para trás”. Explica. São raras as situações em que liquidam tudo. Apesar das dificuldades, são poucos os doentes habituais que saem da farmácia sem levarem consigo os remédios que precisam. Normalmente medicamentos para a tensão, colesterol ou a diabetes. Mas mesmo quem sofre de doenças crónicas escolhe o que pode levar para casa.

“Há uma diminuição na capacidade de compra e as pessoas fazem uma contenção de gastos. Deixam de tomar os medicamentos para o colesterol, porque pensam que se trata só de um problema de alimentação, optam por levar apenas uma caixa ou compram só uma parte do que é receitado. Em média, cada farmácia tem cerca de 100 pessoas a quem vende a crédito. Algumas ficam com calotes porque os doentes não lhes pagam”, diz Aranda da Silva, ex-bastonário da Ordem dos Farmacêuticos.

Opção - Pagamentos a prestações em casos extremos - São os clientes mais antigos das farmácias os que mais têm o hábito de pedir para pagar no final do mês os remédios que levam para casa.

“Nota-se que as pessoas vão adiando cada vez mais a data de pagamento. Pedem mais dois ou três dias e às vezes são os filhos que têm de ajudar a pagar a conta. Em situações extremas, quando a pessoa já está em incumprimento, a farmácia pode propor o pagamento a prestações quando se percebe de que o doente não consegue cumprir o pagamento”, explica ao DN Hipólito Aguiar. O director técnico da Farmácia Aguiar assume que os portugueses perguntam cada vez mais para que servem os remédios para saber os que podem ou não prescindir. “Acontece mais do que era habitual. Mesmo que tenham o dinheiro, as pessoas não querem prescindir dele”, diz, referindo que há muita pobreza envergonhada.

Retrato - Olham primeiro para o preço do medicamento - Alentejo Estão a “agravar-se as dificuldades das famílias para suportarem os encargos com medicamentos”, diz ao DN Maria do Rosário, da Farmácia Elvas, em Portalegre, um dos distritos mais afectados pelo desemprego. “De há dois meses para cá notamos que têm maior dificuldade em comprarem os medicamentos de que necessitam”. A farmacêutica garante que “pouca gente” deixa de os comprar devido à “falta de dinheiro”. O mais frequente é não aviarem toda a receita ou solicitarem a troca do medicamento por outro mais barato. “Muitas pessoas deixaram de poder continuar com os medicamentos que estavam a tomar e quando chegam à farmácia colocam em primeiro lugar a questão do preço.” Maria do Rosário diz que o maior número de situações ocorre em famílias com filhos, em que o pai ou a mãe perdeu o emprego ou o subsídio de desemprego. “Se não conseguíssemos alterar o medicamento por outro com preço mais reduzido ou mesmo sem custo no caso dos idosos, muitas pessoas deixavam de fazer a medicação.”

Funcionários públicos também já poupam - Minho Em 50 anos não há memória de “dificuldades tão profundas” nos clientes da Farmácia Nelsina, Viana do Castelo. A directora, Emília Manso-Preto, explicou ao DN que há dois anos que se tornou “normal” ver os clientes a aviar apenas alguns medicamentos das receitas. No entanto, a situação agravou-se em Janeiro e Fevereiro. “Aos reformados e pessoas com menos recursos económicos já estávamos habituados. Desde o início do ano que vemos funcionários públicos a fazer o mesmo, ou seja, não levam os medicamentos todos porque o dinheiro já não chega, depois dos cortes nos salários”, explicou. É o caso de um professor do ensino secundário, que com uma medicação para a próstata de duas caixas, receitadas pela médica, levou apenas uma. “Disse que depois ia buscar a receita para mais uma caixa”, recorda Emília. Ainda mais graves são os casos, diários, de medicação para o controlo de colesterol ou da tensão arterial. “Já só tomam de dois em dois dias, medicamentos que deviam ser diários”, rematou.

Viseu “Nunca como agora tivemos tantos problemas com o crédito aos clientes.” O desabafo é de Graciano Costa, dono da farmácia Pinto de Campos, em Viseu, e há 37 anos no negócio. Apesar de os medicamentos “estarem mais baratos, o que é uma evidência, a comparticipação reduziu e o cliente acaba por pagar mais”, diz o farmacêutico. Gastos que acabam por engrossar o rol das vendas a crédito. A culpa “é da crise, as pessoas têm menos dinheiro, e das alterações nas comparticipações”, adianta. A agravar a situação está “a falta de preço nas embalagens”. E, em muitos casos, “o utente não leva o que precisa, porque não tem dinheiro ou então a ficha do cliente engrossa com a despesa”. E casos há “de medicamentos necessários, e que são para toda a vida, em que o utente ou não compra ou pede para se encontrar o genérico equivalente”. Como resultado das dificuldades, o crédito aos clientes “está a aumentar, sobretudo aos mais idosos, e as dificuldades para a sua cobrança também”, conclui.

Mais fornecimentos estão suspensos - No final de 2010, 450 farmácias não estavam a receber medicamentos dos armazenistas. Em 2009 havia 255 nesta situação.

Há 450 farmácias que estão com fornecimentos de medicamentos suspensos por falta de capacidade financeira. Os dados da Associação Nacional de Farmácias (ANF) referem-se a Dezembro de 20100 e mostram um aumento de 76% nos estabelecimentos nestas condições em comparação com o mesmo período de 2009. Nessa altura eram 255 as farmácias que não eram abastecidas.

“As farmácias estão sobre uma pressão enorme por parte dos fornecedores. Este é um momento muito complicado, com as alterações dos sistemas de comparticipações e alterações nos preços dos medicamentos. Houve uma overdose de medidas tomadas em Setembro, que levaram a quebras de 9% no mercado global”, diz ao DN João Cordeiro, presidente da ANF.

Situações que estão a provocar quebras entre os cinco e os 10 mil euros por mês nas receitas das farmácias. Segundo a ANF, no final do ano passado estavam a decorrer 186 processos judiciais para regularização de dívidas, e muitas farmácias a renegociar prazos de pagamento.

“Fazemos distribuição a 1300 farmácias em todo o País. Cerca de 300 estão com problemas. Já temos reuniões marcadas para estabelecermos planos de pagamento, revela ao DN Pedro Pires, responsável da Udifar. “As farmácias não têm capacidade para responder a tantas alterações e têm dificuldade em fazer face aos compromissos. Das maiores às mais pequenas sofrem do mesmo mal”, diz o responsável, explicando que o problema pode levar a um decréscimo da qualidade do serviço.

 

Fontes: Jornal "Diário De Notícias" e autor em 14 de Março de 2011

 
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