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20% das Farmácias sem dinheiro para repor "stocks"
Sexta, 26 Agosto 2011 00:00
Segundo dados a que o DN teve acesso, 604 farmácias têm os fornecimentos suspensos porque não conseguem pagar os medicamentos que pedem aos fornecedores. Um valor que representa cerca de 20% das 2900 farmácias existentes no País.

Só nos primeiros seis meses deste ano foram 154 os estabelecimentos que se juntaram aos 450 registados em 2010 na lista de fornecimentos suspensos. O número de processos judiciais também aumentou: passou de 186 no final do ano passado para 240. Processos que representam mais de 61 milhões de euros.

O cenário de dívida e de incapacidade não se fica pelas grandes cidades. Na zona de Viseu há farmácias que enfrentam dificuldades – quebras nas vendas na ordem dos 30% e falta de dinheiro para pagar aos fornecedores. As reduções de preços impostas pelos últimos ministros da Saúde e das compras feitas pelos doentes são as principais justificações dadas pelas farmácias à situação que vivem.

“Se uma farmácia perde clientes, não vai conseguir pagar a tempo e horas. A partir daí é o descalabro. Se não existem fornecimentos, não conseguem satisfazer os pedidos dos doentes que acabam por procurar outras farmácias”, explicou ao DN Isaura Martinho, da Farmácia Marvila em Chelas. Farmacêutica há 30 anos, confessou nunca ter visto um “período tão mau como este”. As suas contas estão equilibradas, mas o esforço é cada vez maior. “Em Outubro vendia medicamentos a 27 euros que agora custam três euros. O que é 20% de três euros? Assim ninguém consegue sobreviver”, afirmou, defendendo pagamentos por acto. Com novos anúncios de descidas, não hesita em dizer que “até ao final do ano será pior”.

A obrigatoriedade de terem disponíveis os remédios prescritos forçou-as a aumentar os stocks, dizem, e o dinheiro investido em compras. “Nunca se sabe o que o médico vai receitar. Quanto mais embalagens ficam disponíveis, mais temos de ter na prateleira. Desde 2008 que o preço dos genéricos está a descer e temos de devolver os produtos e voltar a repor stock. Ainda temos situações de créditos de Dezembro por resolver”, lamentou ao DN a presidente da Associação de Farmácias Portuguesas, lembrando que as vendas estão em queda.

Helena Castro Machado não aceita, por isso, as recomendações feitas pelo Tribunal de Contas (TC), que fala numa rentabilidade das farmácias de 13%, enquanto que o sector retalhista em geral tem apenas 5%. Contesta ainda a pouca concorrência entre farmácias. “A liberalização só iria agravar o problema e muitas farmácias teriam que encerrar.”

O TC refere ainda que Portugal é um dos países que mais gasta em medicamentos: 21% da despesa em saúde.

O Bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, não concorda com a comparação. “Se virmos as despesas per capita, Portugal é um dos que menos gasta.” E lamenta que o TC não tenha consultado a Ordem: “Parece que têm medo. Não faz sentido fazerem recomendações sobre prescrição de medicamentos, que é algo científico, sem falar com quem os prescreve”, criticou.

 

Fontes: Jornal "Diário de Notícias" e autor em 26 de Agosto de 2011

 
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