Covid-19. Qualidade do álcool em gel à venda em Portugal não é testada

Covid-19. Qualidade do álcool em gel à venda em Portugal não é testada - 

Segundo a Deco Proteste, os antissépticos em gel apenas são eficazes se o conteúdo em álcool for superior a 60%. A Organização Mundial de Saúde aconselha até 80%. Produto não está a ser testado porque não há indícios, na documentação que apresentam, de falsificação ou adulteração.

Nenhum organismo do Estado está a testar em laboratório a qualidade do álcool em gel à venda em Portugal. A função caberia em princípio à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), cujo laboratório está, porém, virado para a análise dos géneros alimentares.

Outras entidades oficiais fiscalizam aspectos como a conformidade da rotulagem, a documentação e a proveniência deste tipo de produto – mas não se a composição do produto obedece aos mínimos exigidos para proteger os consumidores contra o novo coronavírus.

De acordo com a associação de defesa do consumidor Deco Proteste, os antissépticos em gel apenas são eficazes se o conteúdo em álcool for superior a 60%. Já a Organização Mundial de Saúde aconselha até 80% de álcool, muito embora avisando que os géis são menos eficazes que os líquidos.

Uma operação desencadeada pela Interpol no início de Março passado e denominada Pangea detectou em 90 países 34 mil artigos e produtos médicos ilegais destinados à protecção contra a pandemia, incluindo gel desinfectante das mãos.

Apesar de estar vocacionado para géneros alimentares, o laboratório da ASAE pode sempre recorrer a congéneres externos se quiser testar outros produtos que não esteja certificado para analisar, explica o principal responsável desta entidade, Pedro Portugal Gaspar. Porém, não o fez até agora: “Ainda não estivemos muito focalizados nisso, temos estado mais focados no lucro ilegítimo.” A ASAE tem levado a cabo várias operações destinadas a detectar especulação neste e noutros produtos relacionados com a pandemia, como as máscaras.

“Não sei se nos temos essa valência. As análises feitas no laboratório são precedidas por um conjunto de certificações”, acrescenta o inspector-geral. Questionado sobre se não considera grave que não esteja a ser testado um produto destinado a proteger dos consumidores, Pedro Portugal Gaspar responde que pode não haver sequer um laboratório público certificado para o efeito. Seja como for, adianta, grande parte deste tipo de consumíveis, como as máscaras, têm certificação CE. 

O símbolo CE é colocado pelo próprio fabricante ou importador na União Europeia, mas há produtos com a marca que não são seguros e o contrário também pode acontecer. Sucede ainda que na passada semana, e devido à escassez de determinados dispositivos médicos e equipamentos de protecção individual, passou a ser permitida na Europa a importação de determinados produtos sem o selo CE, desde que comprovado o cumprimento dos requisitos de segurança, de saúde e de desempenho estabelecidos pela legislação europeia.

O PÚBLICO inquiriu também a Direcção-Geral da Saúde – que não respondeu – e a Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) sobre as garantias de defesa da saúde pública no caso do álcool em gel. Referindo estar atento ao fenómeno da falsificação/contrafacção de medicamentos e produtos de saúde, esta entidade explica que participa, há largos anos, na operação Pangea. E acrescenta que tem também um protocolo com a Autoridade Tributária para que qualquer produto suspeito possa ser analisado/verificado pelos seus técnicos.

“No âmbito da actual pandemia, o Infarmed, a ASAE e o Instituto Português de Qualidade têm, em parceria, apoiado as aquisições para o Serviço Nacional de Saúde de dispositivos médicos e equipamentos de protecção individual, apreciando e verificando documentalmente as propostas apresentadas, nomeadamente quanto à conformidade do produto com referencial normativo reconhecido e ou apreciando a credibilidade do circuito de distribuição”, diz a Autoridade Nacional do Medicamento, acrescentando que a apreciação quanto à conformidade dos dispositivos cabe aos organismos notificados (entidades independentes com competência técnica para proceder à avaliação da conformidade dos produtos sujeitos a directivas comunitárias) e, no contexto covid-19, aos fabricantes — que devem também garantir a conformidade dos seus produtos com as normas aplicáveis na União Europeia.

No caso dos consumíveis sem marcação CE, a demonstração do cumprimento dos requisitos de saúde e segurança “poderá ser realizada com base em documentos que provem que o produto cumpre as especificações técnicas europeias ou internacionais reconhecidas”, diz o Infarmed.

Ou seja, a qualidade do álcool em gel não está a ser testada porque as autoridades fiscalizadoras se baseiam na documentação e na certificação dos produtos. Se a documentação e proveniência obedecem aos critérios exigíveis consideram não haver razão para duvidar da sua qualidade.

 

Fonte: Site do Jornal "Público" e autor em 13 de Abril de 2020.

Governo flexibiliza prescrição electrónica de medicamentos durante a pandemia

Governo flexibiliza prescrição electrónica de medicamentos durante a pandemia - 

Para fazer face à pandemia, o Ministério da Saúde criou um regime excepcional que flexibiliza a prescrição de receitas por via electrónica.

O Governo criou, por diploma, um regime excepcional de prescrição electrónica de medicamentos e respectiva receita médica, para durar no estado de emergência e salvaguardar a continuidade do acesso aos medicamentos com prescrição médica, especialmente pelos doentes crónicos.

A ministra da Saúde, Marta Temido, explica no diploma – publicado na quinta-feira em suplemento do Diário da República – que o motivo deste regime excepcional e temporário é a pandemia do Covid-19 que obriga, neste momento, a “manter ao nível mínimo indispensável” de contacto entre pessoas, por tal contacto “constituir um forte veículo de contágio” daquela doença e da propagação do coronavírus.

As medidas restritivas de circulação das pessoas não impedem deslocações às farmácias e para abastecimento de bens e serviços, designadamente por motivos de saúde, mas pretendem evitar deslocações às unidades de saúde para renovar receitas médicas, que cessem validade durante o actual estado de emergência, e tornaram “imprescindível” a criação de medidas de excepção no âmbito da prescrição e dispensa de medicamentos, segundo a ministra.

Sem prejuízo da obrigação das farmácias manterem níveis adequados dos seus stocks de medicamentos e diferentes opções, entende-se oportuno flexibilizar algumas disposições da actual legislação relativa à dispensa de medicamentos, na eventualidade de existir indisponibilidade de determinados medicamentos, por forma a proporcionar a melhor continuidade de acesso aos medicamentos por parte dos utentes”, justifica no preâmbulo da portaria publicada.

Sobre a renovação da receita médica, o diploma determina que receitas médicas das prescrições electrónicas de medicamentos com validade de seis meses, “cujo prazo de vigência termine após a data de entrada em vigor da portaria [18 de Março, quando foi decretado o estado de emergência], consideram-se automaticamente renovadas por igual período”.

O diploma considera também renovadas as receitas médicas das prescrições de medicamentos com a classificação farmacoterapêutica (mas desde que do chamado grupo 4.3.1.4), outros anticoagulantes, alguns produtos dietéticos indicados para satisfazer as necessidades nutricionais dos doentes afectados de erros congénitos do metabolismo, alguns alimentos e suplementos alimentares prescritos a crianças com sequelas respiratórias, neurológicas e/ou alimentares secundárias à prematuridade extrema e ainda dispositivos médicos comparticipados que se destinem a tratamentos de longa duração.

O novo prazo de vigência da receita renovada automaticamente conta-se a partir da data de cessação da vigência da receita inicial”, especifica Marta Temido no diploma, que cria ainda regras para uma “dispensa excepcional” dos medicamentos.

Para medicamentos destinados a assegurar a continuidade de um tratamento com duração estimada superior a 28 dias e para medicamentos, que sejam ou não comparticipados, o direito de opção do utente deixa de estar limitado a medicamentos com preço inferior ao do medicamento prescrito.

Mas esta limitação, imposta aos utentes desde 2015, só fica suspenso “sempre que não seja possível a dispensa do medicamento prescrito ou de outro de preço inferior”, passando o farmacêutico a ter o dever de dispensar o medicamento “disponível em stock de menor preço e registar tal ocorrência”.

Marta Temido, através do diploma, cria ainda uma regra para a proibição de dispensa: “Os medicamentos prescritos electronicamente em receitas médicas com validade de seis meses não podem ser integralmente dispensados num único momento, devendo as farmácias dispensar apenas o número de embalagens necessário para tratamento até dois meses”.

A portaria, publicada na quinta-feira, produz efeitos durante o período de vigência do estado de emergência, renovado por decreto do Presidente da República em 02 de Abril, e das suas eventuais novas renovações.

 

Fonte: Site do Jornal "Eco.sapo.pt"  e autor em 10 de Abril de 2020

Médico geriatra João Gorjão Clara defende uso de hidroxicloroquina em lares

Médico geriatra João Gorjão Clara defende uso de hidroxicloroquina em lares - 

O médico especialista em geriatria defende que seja utilizada nos lares, em idosos com covid-19, a mesma medicação que é dada nos hospitais.

É preciso tomar uma atitude positiva e actuante, em vez de simplesmente estar fechado em casa à espera que [a doença] passe ou a tratar os doentes com sintomas com paracetamol e esperar que a situação se agrave e que vão para o hospital a seguir, onde chegam com três ou quatro dias de evolução, e numa situação muito mais débil e mais difícil de controlar do que se a situação fosse abordada logo no inicio”, disse à Lusa o médico.

João Gorjão Clara, médico cardiologista e membro do Núcleo de Estudos de Geriatria da Sociedade Portuguesa da Medicina Interna, referia-se à associação de hidroxicloroquina com azitromicina, terapêutica ainda sem evidência científica que permita concluir da eficácia indiscutível em covid-19, porque a doença é muito recente, mas com evidência empírica, de tal modo que é a terapêutica usada nos hospitais, para os casos internados.

Ensaios mostram que hidroxicloroquina consegue “reduzir o tempo da doença e evitar a progressão”

Por isso mesmo, e perante o flagelo das mortes de idosos em lares, o especialista não entende a resistência em utilizar a terapêutica nesta população, sublinhando que alguns pequenos ensaios já tem demonstrado que consegue “reduzir o tempo da doença e evitar a progressão da doença para uma situação muito mais grave, que é a da falência multiorgânica”.

“Esse trabalho, contestado porque não cumpre as regras da boa prática da investigação médica, tem sido referência e usado e replicado em muitos sítios do mundo com eficácia. Se nós não temos evidência científica suficiente para que possamos usar com segurança esta associação medicamentosa e este tratamento, o que é um facto é que é isso que se faz nos hospitais. Neste momento, o protocolo hospitalar para o tratamento dos doentes que lá chegam com covid-19 e sintomas é a associação dos dois fármacos”, afirmou o médico.

Essa tem sido a sua “luta”, porque não consegue compreender por que é “preciso chegar ao hospital para fazer essa terapêutica” e “por que é que não a usam cá fora e mais cedo”, ainda para mais sendo de fácil administração.

Não é preciso injecções, nem pôr soro a correr, nem fazer administrações endovenosas, é dado por via oral, qualquer  pessoa consegue fazê-lo com facilidade, em qualquer sitio. Particularmente, pode ser administrado aos velhos que estão nos lares e que não têm tido este tipo de abordagem terapêutica”.

Na opinião do médico, essas pessoas deviam começar já a ser tratadas, com controlo médico, através de “equipas médicas devidamente protegidas”, que se deslocassem aos lares, que definissem quais os casos de covid-19 positivos, que os separassem dos outros utentes e que começassem a fazer a terapêutica.

“É preciso ter coragem de o fazer e arranjar [os medicamentos] em quantidade suficiente, que neste momento é difícil, para começar a actuar de maneira activa e não ficar sentados a fazer paracetamol à espera que os doentes se agravem e depois encham as camas dos hospitais. Se o fármaco for eficaz, estamos a poupar vidas e a evitar que entrem doentes em catadupa nos hospitais, se não for, paciência, teve-se atitude activa e não se perdeu tempo, que é o que está a acontecer”, lamentou.

Riscos cardíacos não têm fundamento, diz o médico

Questionado sobre os riscos que a hidroxicloroquina pode ter para o coração, que tem sido uma das razões apontadas para justificar que se evite a sua utilização, o médico cardiologista afirma que é uma argumentação que “não colhe”, porque esse medicamento “foi prescrito durante anos” aos soldados que iam para África e aos residentes portugueses em África, “todos faziam hidroxicloroquina”.

Hoje, qualquer pessoa que viaja para a Índia ou África e for à consulta do viajante, é-lhe prescrita essa medicação profilática por causa da malária, antes, durante e depois, e “ninguém se preocupa se vai fazer uma morte súbita”, acrescentou.

A hidroxicloroquina, num número restrito de pessoas que tem uma determinada alteração congénita na condução eléctrica ao nível do coração, pode provocar morte súbita, mas é um número muito pequeno, e muito pequeno que nunca serviu de argumento para que os soldados não tomassem ou os residentes que lá viviam e que começaram a fazer em crianças e fizeram sempre, até virem para Portugal, durante 20 ou 30 anos sem que esse problema alguma vez se tivesse posto. É um falso argumento, não há nenhum medicamento que não tenha acções secundárias, e essa é rara”.

Quanto à azitromicina, é um antibiótico que todos os médicos usam há muito tempo para tratar infecções do trato respiratório, acrescentou.

Na opinião do especialista, o que sustenta a resistência ao uso da associação terapêutica para a covid-19 fora do meio hospitalar são os argumentos da evidência cientifica e os de ordem económica.

No primeiro caso porque, nos últimos anos a intervenção médica baseia a administração de terapêutica farmacológica em grande ensaios duplamente cegos e com amostra randomizada (medicina baseada na evidência), o que neste caso não aconteceu.

O segundo argumento prende-se com a falta de hidroxicloroquina no mercado para fazer face à pandemia, uma vez que a quantidade produzida é para doenças nas quais é actualmente utilizada, como é o caso da artrite reumatóide ou as autoimunes lúpus e síndrome de Sjögren.

 

Fonte: Site da "saudeonline.pt"  e autor em 9 de Abril de 2020

Covid-19: OMS adopta ferramenta portuguesa

Covid-19: OMS adopta ferramenta portuguesa - 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) apresentou formalmente a ADAPTT Surge Planning Support Tool como instrumento global para o planeamento de necessidades para a resposta à pandemia de covid-19.

Esta ferramenta foi desenvolvida pela Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) e pela GLINTT – Global Intelligent Technologies, em colaboração com a OMS.

A ADAPTT é uma ferramenta destinada ao planeamento de cuidados de saúde, tais como gerir o número de camas necessários, as datas de escassez prevista de cada tipologia de camas, e os recursos humanos necessários para diferentes especialidades e competências de médicos, enfermeiros e técnicos auxiliares de saúde.

Permite também que os utilizadores dos vários países insiram os seus dados epidemiológicos, variem os cenários de mitigação (ao usar o modelo epidemiológico ilustrativo da ferramenta) e adaptem a ferramenta a diferentes taxas.

A ferramenta já se encontra em testes em vários países das diferentes regiões da OMS. Em Portugal foi disponibilizada ao Ministério da Saúde Português a 30 de Março. Neste momento está traduzida em cinco línguas: inglês, russo, espanhol, português e árabe.

 

Fonte: Site da "Netfarma.pt"  e autor em 9 de Abril de 2020

Aprovada gratuitidade da linha SNS24

Aprovada gratuitidade da linha SNS24 - 

Foi aprovado no Parlamento esta quarta-feira, dia 8 de Abril, por proposta do partidos “Os Verdes”, o fim dos números de valor acrescentado no atendimento de serviços públicos, como é o caso da linha telefónica SNS24, que representam um custo adicional para os utentes.

Este projecto de diploma foi aprovado, com os votos contra do PSD, CDS-PP e Iniciativa Liberal.

A partir de agora, o atendimento dos serviços públicos vai passar a disponibilizar linhas telefónicas de atendimento com o prefixo “2”, isto é, números nacionais sem valor acrescentado.

Uma das linhas destacadas pelo partido “Os Verdes” foi a linha SNS24, defendendo que “é da mais elementar justiça que um serviço com as características e os objectivos da Linha SNS24 não represente custos para o consumidor/utente”, principalmente tendo em conta a pandemia de covid-19, que o país está a ultrapassar.

“OS Verdes” dão agora 60 dias ao governo para substituir o número do SNS24 para um número gratuito.

“Tendo em conta a especificidade do serviço prestado pela linha SNS24, o Ministério da Saúde deve no prazo máximo de 60 dias, a contar da data de entrada em vigor da presente lei, substituir o número do SNS 24 de prefixo “808” por um número especial, assegurando a sua total gratuitidade para os utentes”, indica um dos artigos do projecto aprovado.

Fora o SNS24, todos os restantes números de atendimento ao público de serviços da administração pública devem ser substituídos por outros sem custos adicionais para consumidores e utentes, num prazo de 90 dias a contar da entrada em vigor da lei.

Para além disso, “Os Verdes” referem ainda que há números de atendimento pagos com introduções “lentas, longas e com múltiplas possibilidades de escolha”, potenciando um custo maior para quem liga e como tal, e por isso, “torna-se, portanto, manifestamente urgente, criar mecanismos legais que promovam a substituição destes números únicos por soluções que não representem custos exorbitantes para quem efectua a chamada, até porque muitos utentes/clientes desconhecem que estes números têm um custo extra”.

 

Fonte: Site da "Netfarma.pt"  e autor em 9 de Abril de 2020

Farmacêuticos. Os infectados invisíveis

Farmacêuticos. Os infectados invisíveis - 

São uma das classes na linha da frente a combater o covid-19, mas incluem o grupo dos "outros" na estatística oficial sobre profissionais de saúde infectados. Sabem que há, mas quantos ninguém arrisca. A Ordem dos Farmacêuticos já solicitou uma alteração da metodologia de registo.

No dia 12 de Março, a farmácia do Hospital Curry Cabral, uma das unidades de referência para tratar o covid-19, teve de fechar as portas. Um farmacêutico testou positivo. O resto da equipa, 30 funcionários, tiveram de ficar em quarentena. No mesmo dia, a Vitália, farmácia histórica na Baixa do Porto, encerrava também. Da equipa de dez elementos havia três infectados, entre eles o director técnico e a directora técnica adjunta. Dez dias depois, Joana Casimiro, farmacêutica há 34 anos, proprietária da Farmácia Curie, junto ao IPO de Lisboa, passava a atender só pelo postigo. Uma decisão que teve de tomar para proteger os funcionários e ela própria, dado não ter material de protecção individual em quantidade suficiente para todos.

Três histórias que atravessam o universo de actividade de quem optou pela farmacologia. Mas neste universo ainda faltam os que estão na investigação científica, na indústria farmacêutica, nos laboratórios de análises, nas Administrações Regionais de Saúde ou ainda nos centros de saúde. Seja como for, são uma das classes profissionais que estão na linha da frente no combate a este novo coronavírus - o SARS-CoV-2, que apareceu no final do ano na cidade Whuan, na China.

E, para quem não saiba, costumam dizer que eles são os profissionais de bata branca que se deslocam nos mesmos corredores que médicos e enfermeiros, apenas com funções diferentes. Ora a manusear medicamentos, a repor stocks, a preparar soros e outras substâncias, ora a acompanhar a medicação de doentes crónicos seguidos em ambulatório.

Não quer dizer que haja alguma rivalidade com as outras classes profissionais, não. Isso deixam-no bem claro. Ainda agora lançaram um programa de apoio no combate à doença, com a Ordem dos Médicos e a associação que representa a indústria farmacêutica, Apifarma. e participaram num debate na internet com todas as ordens na área da saúde. Apenas quer dizer que também estão na linha da frente, que são infectados, que têm de ter material de protecção individual, porque lidam com doentes, quer nas unidades de saúde quer na comunidade, e que também isto falta a alguns.

Quer dizer que, por tudo isto, não percebem por que o registo de profissionais de saúde infectados, que é a base dos dados oficiais, apresentados pelo Ministério da Saúde, inclui apenas médicos, enfermeiros e outros. Eles fazem parte dos outros infectados, dos que são invisíveis e que incluem também assistentes operacionais, técnicos de diagnóstico, administrativos, etc., e que ninguém sabe ao certo quantos são, em cada grupo profissional.

Grupo dos "outros" infectados já vai em mais de 800 profissionais

Dados divulgados pelo Ministério da Saúde, numa das conferências de imprensa de balanço epidemiológico desta semana, indicam que até agora só no SNS há 1345 profissionais de saúde infectados, 370 enfermeiros, 240 médicos e 825 no grupo dos "outros".

O DN sabe que a Ordem já solicitou ao Ministério da Saúde que altere a metodologia de registo para que se saiba com exactidão quantos infectados fazem parte do seu grupo profissional, mas até agora tal nada foi alterado.

A Ordem dos Farmacêuticos criou um Gabinete de Crise que se "reúne periodicamente para acompanhar a evolução da situação que estamos a viver e para auscultar todo o sector, desde a indústria à farmácia hospitalar e à comunitária, até aos laboratórios de análises, porque todas estas áreas têm de estar enquadradas com os novos procedimentos e regras", explicou ao DN uma farmacêutica.

Mas não só. E, porque são uma profissão também muito virada para os doentes, a Ordem trabalhou na criação de linhas de apoio aos profissionais, mas também aos doentes. "Temos feito um grande trabalho no sentido de ajudar os doentes, para que aqueles que não se podem deslocar, aos hospitais ou à farmácia comunitária, recebam a sua medicação em casa."

Nove farmácias infectadas, sete já reabriram

E é isto que as farmácias de oficina, ou comunitárias, têm feito, quer com a ajuda de juntas de freguesia ou de autarquias. Tentar chegar a todos. Mas nesta fase já nove viram as portas fecharem-se por o vírus ter chegado até elas. Sete já reabriram, faltam apenas duas. A Associação Nacional de Farmácias espera que mais não sejam afectadas. Não só pelos profissionais, mas também pelo negócio.

Na Baixa do Porto, a Farmácia Vitália é uma das que passaram por esta situação. Os delegados de saúde fecharam-lhe as portas no dia 12 de Março, depois de um dos sócios ter sido internado no Hospital de Santo António e ter dado positivo ao novo coronavírus. A despistagem levou a que se testasse os restantes nove elementos da equipa. O director técnico e também sócio, Armindo Cosme, de 55 anos, era um dos que estavam infectados, e não sabia, a directora técnica adjunta também. Os restantes, embora sem sintomas, tiveram de ir para casa de quarentena. O primeiro foi infectado no âmbito social, os outros já no meio laboral.

A sorte "é que tínhamos um funcionário de baixa médica e foi ele que nos ajudou com a equipa de desinfecção na farmácia e com todas as alterações que tivemos de fazer para podermos reabrir no dia 25, 13 dias depois", conta ao DN este farmacêutico com mais de 30 anos de profissão e há quase 20 na Vitália.

Mais ninguém ficou infectado, os restantes voltaram ao trabalho. Ele continua em casa. Nesta quarta-feira, fez novo teste para saber se já está negativo, espera que sim, há muito que não tem sintomas, mas os resultados só os terá daqui a 48 ou 72 horas.

Armindo faz parte do grupo dos cem primeiros casos de covid-19 em Portugal. Nunca o imaginou, mas a cadeia epidemiológica traçada pela saúde pública não deixa muitas dúvidas. "Fui infectado pelo meu sócio, que tinha estado numa festa na zona de Aveiro, onde esteve com um senhor, que trabalha em Lisboa, mas que tinha passado por Felgueiras e que tinha estado com pessoas infectadas."

Foi o suficiente para o infectar a ele e, porventura, a outra colega, que é o seu braço-direito na farmácia. Ele infectou a mulher e os dois filhos. Desde o dia 12 de Abril que estão todos em casa. "Sofro de rinite alérgica, tinha um pouco de tosse, mas é um sintoma normal para esta época, não liguei e só soube que estava infectado depois de o meu sócio ter sido internado na madrugada do dia 12. Ele esteve mal, eu tive apenas uma situação ligeira, sem febre, mas com dores musculares, aquela dormência própria de gripe", afirma.

O sócio de Armindo foi o primeiro a dar sinal de que algo se passava, pois as pessoas que estiveram com ele na festa na zona de Aveiro só souberam que estavam infectadas depois de ele ter sido internado e de terem sido contactadas pela saúde pública. "A cadeia de transmissão foi mesmo designada pela festa de aniversário na zona de Aveiro. Foram uma série de pessoas e muitas em isolamento profilático. Só à minha conta ficaram em isolamento mais de uma vintena de pessoas. Antes de saber tive a festa de anos do meu filho, onde esteve a família toda e amigos", refere mostrando como a multiplicação do vírus pode acontecer. "Mas mais ninguém teve doença, ninguém teve sintomas, alguns fizeram mesmo o teste e deram negativo. Só eu e a minha família ainda estamos fechados em casa."

Espera regressar ao trabalho na próxima semana, a farmácia ainda não está a funcionar normalmente. "Colocámos postigos de acrílico a separar a comunicação entre os profissionais e os clientes. Só entra uma pessoa à vez, mas os funcionários estão instruídos para usarem máscaras, luvas e desinfectarem constantemente os ATM." Neste momento, a Vitália está só a funcionar a um terço do habitual. Armindo Cosme espera que rapidamente tudo volte ao normal.

Sem máscaras para todos, só atende pelo postigo

Joana Casimiro tem 58 anos. É farmacêutica e proprietária da Farmácia Curie, em Lisboa, e doente de risco no covid-19. Há uns anos foi operada a um tumor, e ainda não obteve alta após o tratamento. Desde o início da epidemia que a sua preocupação foi sempre a de proteger as pessoas que com ela trabalham e ela própria. Por isso, no dia 22, já em pleno estado de emergência, decidiu fechar as portas da farmácia e começar a atender pelo postigo.

A farmacêutica conta que não tem outra solução. Não tem material de protecção suficiente para todos os funcionários, portanto era o que lhe restava fazer. "Marquei o chão para as pessoas cumprirem o distanciamento, coloquei cartazes a pedir que não colocassem nada em cima do balcão, tinha indicação à porta que só entrava uma pessoa de cada vez, mas nem sempre era respeitado. E, no dia 22, quando entra ao fim da tarde um senhor na farmácia que tinha estado na fila junto de outras pessoas e a fumar, tinha máscara e tirou-a quando entrou na farmácia e que depois manifesta visíveis sintomas da doença, decidi que fechava a porta, não podia continuar assim."

No dia seguinte estavam a trabalhar rotativamente duas equipas em dois turnos, o da manhã e o da tarde, continuando a fazer 11 horas por dia e 55 horas semanais, "respeitando o que está na legislação". Abrem às 08.00 e fecham às 13.30, para a farmácia ser desinfectada e às 14.00 entrar outro turno, e quando fecham há nova desinfecção.

Joana é farmacêutica há 34 anos, há 31 que está naquela farmácia, junto ao IPO de Lisboa. Sempre teve stock de máscaras, porque "os doentes imunossuprimidos usam-nas muito. Em Janeiro, tive uma procura grande, mas o abastecimento foi normal. Em Fevereiro já começou a escassear, até que deixei de receber encomendas dos fornecedores normais, comecei a receber propostas de compra deste tipo de material a preços muito mais elevados, ainda hoje me pediram 40 euros mais IVA por uma caixa de 50 máscaras. Não compro e não tenho stock".

Do stock que ainda tinha deu algumas caixas à Unidade de Transplantes de Medula do IPO, que "já não tinham para dar aos doentes". Restam-lhe algumas, mas, como não chegam para todos os funcionários, irá fazer o mesmo. Joana receia a infecção, uma das suas preocupações sempre foram os doentes oncológicos, mas receia também pelos seus funcionários. Por isso, irá continuar de porta fechada e só a abrir o postigo, que à frente tem um cilindro e protege-a a ela e aos funcionários.

"Uma farmácia tem a obrigatoriedade de estar aberta 55 horas semanais, não quisemos infringir a regra, que ainda se mantém em vigor, mas somos tratados como estando ao mesmo nível de outro negócio de porta aberta, ao nível da padaria, do café, da mercearia, que não têm essa obrigatoriedade. Estamos expostos, mas ninguém das autoridades de saúde nos perguntou ou disponibilizou material para os profissionais", salienta. "Os farmacêuticos estão na linha da frente, mas ninguém tem pensado muito neles. Não obstante o trabalho que a nossa bastonária tem feito junto do Ministério da Saúde desde o início desta situação", acrescenta.

Joana ganhou alguma tranquilidade com as medidas que foram tomadas e que estão a permitir controlar melhor a situação do que era expectável, mas está apreensiva com a saída de tudo isto. "Se não estávamos preparados para estar dentro disto, também não estamos para a saída. Só podemos aguardar."

Farmácias hospitalares fechadas

O primeiro caso que nos reportam é o do Hospital Curry Cabral, mas há mais. Pelo menos mais duas situações, asseguram-nos. Só conseguimos confirmar a situação de Lisboa. Um farmacêutico infectado, numa equipa de 30 elementos, levou ao encerramento da farmácia da unidade que é referência para o covid-19 na zona sul.

A farmácia foi desinfectada durante três dias, dois de fim de semana, em que habitualmente está fechada também, e ao quarto dia reabriu com elementos das outras farmácias das unidades que integram o Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central. "Ninguém ficou sem medicamentos. Tudo foi assegurado pela farmácia central no Hospital de São José", confirmou ao DN fonte do centro. Até agora, não houve qualquer outra situação.

O número de profissionais infectados vai aumentando, não se sabe quando será descoberto algum fármaco ou vacina que trate ou previna a doença. Portugal está com 13 141 infectados neste dia e 380 mortos.

 

Fonte: Site do Jornal "Diário de Notícias"  e autor em 9 de Abril de 2020