Infarmed autorizou 155 ensaios clínicos em 2020 e reduziu tempo de resposta

Infarmed autorizou 155 ensaios clínicos em 2020 e reduziu tempo de resposta - 

Especialista do Infarmed considera que Portugal "tem margem de crescimento" na área dos ensaios clínicos e que é preciso "coesão e alinhamento de todos os envolvidos"

O Infarmed recebeu no ano passado 187 pedidos de autorização para ensaios clínicos, um aumento de 30% relativamente a 2019 e que se reflectiu em mais autorizações concedidas (155), mas ainda assim o instituto conseguiu reduzir o tempo de resposta.

Em declarações à agência Lusa a propósito do Dia Internacional dos Ensaios Clínicos, que hoje se assinala, o director da Unidade de Ensaios Clínicos do Infarmed, Joel Passarinho, sublinhou o facto de na última década o número de pedidos submetidos ao instituto ter duplicado, acrescentando que, dos pedidos autorizado no ano passado, seis foram no âmbito da covid-19.

Este responsável do Infarmed considerou que participar num ensaio clínico é "um acto de altruísmo", sublinhando que a função principal dos ensaios é "aumentar o conhecimento", seja de uma nova terapêutica ou de uma já existente mas à qual se pretende dar uma outra indicação.

"Não há qualquer garantia de que exista ali um benefício associado e que isso (...) seja garantido à partida. Aquilo que nós sabemos quando autorizamos o ensaio é que, do ponto de vista do conhecimento que exista naquele momento, do ponto de vista do benefício-risco, existem as premissas essenciais para se garantir que é seguro autorizar, que os benefícios superam os riscos", afirmou.

No ano passado, o Infarmed recebeu 187 pedidos de autorização para ensaios clínicos (142 em 2019) e autorizou 155 (142 em 2019), sendo que o tempo médio de decisão foi de 32 dias (22 dias úteis), menos dois dias de calendário do que em período homólogo.

Quase metade dos ensaios autorizados no ano passado foram na área da oncologia (81), seguindo-se os que envolvem o sistema nervoso central (27), medicamentos anti-infecciosos (13) e o sistema cardiovascular (13).

Segundo os dados da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, a maioria dos pedidos parte da indústria farmacêutica (167), sendo os restantes académicos (20).

Questionado pela Lusa, Joel Passarinho sublinhou a segurança dos ensaios clínicos, frisando que são "meticulosamente planeados" e "extremamente escrutinados".

"São avaliados seguindo práticas universalmente reconhecidas pela comunidade científica mundial. Quando são avaliados pelas autoridades, são revistos e, se forem necessárias alterações ou modificações aos protocolos, ou aos desígnios do estudo, (...) essas alterações são solicitadas às empresas ou aos investidores para que sejam introduzidas no protocolo", assegurou.

O responsável lembrou ainda que o ensaio clínico, a partir do momento em que é autorizado, "é continuamente monitorizado", por vezes mesmo depois de acabar, pois há efeitos que podem ser sentidos a longo prazo.

"Aquilo que tem de ser sempre garantido é que o Infarmed e as instituições europeias procuram garantir que existe uma relação de benefício risco favorável", acrescentou.

Lembrou ainda que além da autorização do Infarmed, é necessário também um parecer favorável da comissão de ética para investigação clínica em Portugal, que se debruça sobre os aspectos éticos do ensaio.

O especialista considerou que Portugal "tem margem de crescimento" na área dos ensaios clínicos e que é preciso "coesão e alinhamento de todos os envolvidos".

"Não só das entidades competentes para autorização, como é o caso do Infarmed, (...) mas de todos os intervenientes nos ensaios, desde os promotores, que devem ter as metodologias mais correctas e a informação mais cientificamente credível no momento da submissão, aos hospitais, que devem ser céleres na validação e na aprovação, e às equipas de investigação, que também têm a sua responsabilidade de fazer o melhor que conseguirem para recrutar os doentes que são necessários", defendeu.

Considerou ainda que "só com o aumento do recrutamento de doentes é que se conseguirá que as entidades promotoras de ensaios clínicos vejam Portugal como atractivo".

Joel Passarinho frisou também a importância do novo regulamento europeu de ensaios clínicos, que entra em vigor em Janeiro de 2022.

"Até aqui, para decorrer nos 27 países da União Europeia, o promotor do ensaio tem de submeter o pedido país a país, em todos os Estados-membros, e esperar por uma autorização. E isto não acontece de forma sincronizada, acontece em diferentes momentos do tempo. Portanto, vai demorar imenso tempo", disse.

Com o novo regulamento, seja qual for numero de países em que o promotor quer desenvolver o ensaio, o pedido será submetido uma única vez, através de uma plataforma informática, e vai ser avaliado de forma coordenada, com a intervenção dos vários Estados-membros.

"Acontece de forma sincronizada e em que são usados os mesmos critérios para avaliar", o que reduz a burocracia e a redundância de procedimentos, encurtando o tempo de autorização, explicou.

 

Fonte: Site do Jornal "Expresso.pt" e autor em 20 de Maio de 2021.

Mais de 600 mil cidadãos da região de Lisboa não têm médico de família

Mais de 600 mil cidadãos da região de Lisboa não têm médico de família - 

Lisboa e Vale do Tejo é a região que concentra a maior parte dos utentes sem médico. No Norte e Centro, a cobertura é mais elevada.

Em Abril, 865 734 dos cidadãos inscritos no Serviço Nacional de Saúde (SNS) não tinham médico de família atribuído, o que representa 8,4% da população nacional, revela o jornal Público. Na Região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT), são quase 620 mil sem médico assistente (mais de 16% da população desta zona do país).

Disponíveis no site BI-CSP (Bilhete de Identidade dos Cuidados de Saúde Primários), os dados relativos ao mês de Abril revelam que ainda existe um longo caminho a percorrer no sentido de cumprir a promessa de António Costa relativa à garantia de que todos os portugueses teriam médico de família até ao final da legislatura.

No Algarve, 6,8% do total de inscritos no SNS não têm médico assistente atribuído e no Alentejo a percentagem assenta nos 6,3%. Já nas regiões do Centro e do Norte, a cobertura é mais elevada, com 4,8% e 2,5% da população descoberta respectivamente.

Questionada sobre este problema, a Ministra da Saúde admitiu que ainda não foi possível garantir a cobertura total da população, ressaltando que o Governo não irá desistir de trabalhar para esse objectivo. “É um facto que estamos ainda longe das metas a que nos propusemos, mas os 935 médicos de família que esperamos contratar este ano (…) vão certamente ajudar-nos a contrariar esta tendência”, explicou à agência Lusa.

Já esta quarta-feira, no parlamento, Marta Temido indicou que a situação se tem vindo a agravar “porque se continuam a verificar — e eram previstas — aposentações. Só este ano aconteceram mais de 100 aposentações de especialistas de medicina geral e familiar, mas, por outro lado, temos também mais 59 mil inscritos nos cuidados de saúde primários só neste quadrimestre. Muitos utentes cuja inscrição estava inactiva, porque não eram utilizadores e reactivaram a sua inscrição com a procura de cuidados de saúde e de vacinação”.

No Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), o Governo reconhece o problema, assumindo que é fundamental “esbater as assimetrias regionais que subsistem na resposta”, uma vez que a escassez de médicos de família é significativamente mais elevada nas regiões do Sul.

Relativamente a estes dados, o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), Nuno Jacinto, explicou que “estamos em anos de picos de reformas”, o que justifica que as entradas de recém-especialistas nos dois concursos anuais não têm sido suficientes para dar resposta ao crescente número de aposentações. Este salienta ainda que, nestes concursos, muitas vagas ficam por preencher.

Segundo Nuno Jacinto, o cerne da questão assenta num esforço direccionado para garantir que os médicos que acabam o internato se fixem no SNS.

 

Fonte: Site da "saudeonline.pt"  e autor em 19 de Maio de 2021

Covid-19: Investigações criam dispositivos de testagem com resultados em tempo recorde

Covid-19: Investigações criam dispositivos de testagem com resultados em tempo recorde - 

Foram divulgados dois estudos que permitem detectar a infecção com o coronavírus SARS-CoV-2 num segundo ou em menos de 30 minutos.

O primeiro estudo foi publicado no Journal of Vacuum Science & Technology B, do Instituto Americano de Física, e é sobre uma investigação da Universidade da Florida, nos Estados Unidos, e da Universidade Chiao Tung, em Taiwan, que desenvolveram um biossensor que permite detectar num segundo biomarcadores para o coronavírus que provoca a covid-19.

O biossensor, semelhante ao usado para detectar glicose no sangue, permite identificar proteínas virais do novo coronavírus SARS-CoV-2 através de um detector de biomarcadores com um pequeno canal onde são colocados os fluidos a analisar.

Os biossensores são descartáveis, mas as outras partes do dispositivo são reutilizáveis, permitindo reduzir os custos do teste.

O segundo trabalho foi publicado na revista Nature Communications, e é sobre uma investigação de uma equipa da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, que criou um dispositivo portátil, em que muitos dos seus componentes podem ser impressos em 3D e que permite obter resultados precisos a partir de uma amostra de saliva em menos de 30 minutos.

O equipamento consegue detectar vários genes por amostra, o que o torna mais preciso do que os testes de um único gene. Outra vantagem é que utiliza saliva, que é mais fácil de recolher.

 

Fonte:  Site "Netfarma.pt" e autor em 19 de Maio de 2021.

Preparar vacinas em hospitais dá para vacinar mais com menos doses

Preparar vacinas em hospitais dá para vacinar mais com menos doses - 

Na preparação de 10 400 doses de vacinas, o Serviço de Farmácia do Hospital de Santa Maria conseguiu obter mais 220. Ou seja, conseguiu vacinar mais 110 profissionais do que é possível num dos centros de vacinação aos utentes. E explicam-nos porquê.

Quando se fala em vacinas para combater a covid-19, a imagem que surge é a de um profissional de saúde de seringa na mão a retirar o líquido de um frasco. Pois bem, mas antes desta imagem há todo um trabalho invisível que permite optimizar as doses constantes em cada frasco.

No Serviço de Farmácia do Hospital de Santa Maria, desde o início do processo de vacinação já foram preparadas 10 400 doses para vacinar os cerca de seis mil profissionais de toda a unidade - nesta altura, já só falta proteger uma pequena parte e a maioria já tem a vacinação completa. Mas deste total de doses ainda foi possível obter mais 220. O que significa que foi possível vacinar de forma completa mais 110 profissionais do que seria possível num posto de vacinação aos utentes.

Porquê? "Porque a preparação é feita em massa, em ambiente de esterilidade, o que nos permite maximizar o reaproveitamento dentro do lote de produção. Ou seja, conseguimos produzir sempre algum excedente ao retirar daquele concentrado apenas a quantidade que é mesmo essencial para misturar com o produto de diluição. Estamos a conseguir retirar cerca de 5% de doses a mais do que é possível retirar num ambiente de preparação convencional", explica ao DN o director do serviço, João Paulo Cruz, enquanto percorremos os dois pisos da unidade que acolhe 150 profissionais e onde se gere anualmente uma verba de mais 180 milhões de euros.

Para quem não sabe, antes de o concentrado da vacina chegar à seringa para ser administrada a cada pessoa tem de passar por uma diluição prévia. "A ampola tem um concentrado que tem de ser diluído antes com cloreto de sódio e só após esta diluição, com uma quantidade pré-definida, é que é feita a dispersão do concentrado e retiradas as doses individuais que correspondem a uma administração", especifica o farmacêutico, continuando: "Num ambiente convencional cada frasco apenas permite as seis doses porque ali também não dispõe das condições que temos aqui." João Paulo Cruz dá como exemplo o que tem sido obtido com a vacina mais usada na unidade, a da Pfizer: "Cada frasco tem seis doses, mas o nosso modelo de preparação tem permitido retirar de cada um deles cerca de 6,5 doses, o que perfaz um total de 220 doses a mais até agora".

Impossível não é, mas seriam precisos mais meios

À pergunta do DN, porque é que este modelo não é aplicado aos centros de vacinação aos utentes para que mais doses pudessem ser administradas, o director do serviço responde: "Não é que fosse impossível de o fazer, seria mais complexo, com as metas definidas para esta fase, por exemplo, vacinar mais de 100 mil pessoas por dia, exigiria mais meios". Mas remata: "Bastava colocar 25 serviços de farmácia hospitalar com mais meios dos que os que já têm a fazer a preparação das vacinas". E ri-se. No entanto, sublinha, "tinha se ser garantido que as vacinas preparadas eram administradas até determinada data, para não perderem qualidade, e que permaneciam sempre em ambiente de esterilidade".

Por agora, João Paulo Cruz sente-se satisfeito com o resultado que a sua equipa tem obtido em mais uma tarefa, porque, assim, "temos vacinado muitas mais pessoas com menos doses". E não nega que ver alargado, à escala nacional, os modelos de optimização de medicamentos que ali usam "seria o ideal para qualquer sistema de saúde, mas também só o conseguimos porque temos equipamento altamente sofisticado".

O coordenador do departamento de manipulação de medicamentos, Rui Marques, aproveita para esclarecer: "Para maximizarmos a preparação em bloco é uma tarefa que optamos por fazer sempre ao fim de semana, assim evitamos que haja constrangimentos com a actividade normal dos hospitais de dia, e temos uma equipa só dedicada a isso".

O processo é feito na antecâmara no corredor à nossa frente. É ali que se prepararam todos os medicamentos injectáveis para administrar aos doentes internados, em ambulatório e, no caso específico das vacinas contra a covid-19, aos profissionais. No momento desta visita guiada, estavam a ser preparados medicamentos citostáticos (doses de quimioterapia).

Da tarefa de manipulação de medicamentos pouco se consegue observar, porque, essa, tem de ser feita com todas as regras de segurança. "O que temos à nossa frente são câmaras de fluxo laminares verticais. Permitem manter a esterilidade das produções e proteger os técnicos, os operadores de substâncias tóxicas, que são utilizadas na manipulação dos medicamentos para a área de oncologia, como quimioterapia. É uma sala que tem pressão negativa, protegendo o ambiente de potenciais contaminações", explica ainda Rui Marques, dando-nos a ideia que, de facto, estamos num dos corredores mais perigosos do hospital.

"Isto são as antecâmaras. Dali vem a prescrição dos medicamentos já validada pelos farmacêuticos, que passa por via informática para a antecâmara onde os técnicos preparam todo o material necessário para a manipulação do medicamento. O material passa para a antecâmara onde se vai fazer a manipulação por transferes", continua. "É necessário que assim seja, para se conseguir garantir a esterilidade do espaço. Se, por exemplo, um técnico entra para a antecâmara todo equipado e se esquece de algo, já não pode voltar atrás, tem de lhe ser dado através dos transferes ou então se sair tem de voltar a entrar com novo equipamento".

À entrada do departamento, um chuveiro amarelo, de pé alto, junto a uma parede e um kit de emergência, não passam despercebidos. "É para o caso de haver algum profissional que possa ser contaminado com substâncias tóxicas". E, à nossa frente, o cuidado da funcionária que prepara as caixas de medicamentos citostáticos para seguirem para os serviços também o confirma. "Se uma destas embalagens se abre é um problema", comentam.

A vigilância e as doses ajustadas ao doente

O burburinho natural do corredor, de quem embala, arruma, troca impressões, contrasta com o silêncio da sala, onde estão seis a sete farmacêuticos à frente do computador e cuja função é confirmar todo os dados que lhes são disponibilizados para aferir da segurança do medicamento, aferir toda a informação do doente a quem vai ser administrado, aferir que não há trocas de medicamentos, etc. Este é o departamento de farmacovigilância onde o silêncio é o segredo para a tarefa diária "muito rigorosa". E para dar um exemplo, João Paulo Cruz conta: "Tivemos de implementar um sistema de alerta para medicamentos de risco e é neste departamento que se faz essa aferição". O risco "tem a ver com o letring de alguns medicamentos que pode levar a que nomes parecidos gerem confusão. Esse risco é aferido aqui. Colocamos letras maiores no meio das palavras para se evitar o erro na prescrição ou na administração. Têm nomes parecidos, mas são de classes diferentes".

Mas há outros riscos a acautelar com mais medicamentos para os quais até há alertas definidos em lei. "São medicamentos que não podem ter o mínimo erro de sobredosagem, nem acima nem abaixo, por poderem provocar efeitos adversos ou não ter o efeito que se pretende. É o risco de manipulação que pode levar à morbilidade e mortalidade do doente". Tudo riscos que, num hospital, são acautelados pelo serviço de farmácia, o que faz João Paulo Cruz a afirmar: "Somos um serviço na retaguarda, mas que é fundamental para manter a segurança do doente no meio hospitalar".

Basta referir que no âmbito da segurança, o serviço desenvolve também um programa de "monitorização da função plasmática de alguns medicamentos para percebermos se os doentes a quem estão a ser administrados determinados fármacos estão com doses tóxicas. Se estiverem, recomendamos ao médico as doses adequadas. Ou seja, somos nós que temos de avaliar o que está a ser administrado ao doente para que a posologia esteja ajustada".

Ensaios clínicos: a visão do futuro a cinco ou seis anos

A farmacovigilância é uma das tarefas do serviço, mas a investigação e a inovação também. Por isso, num serviço com a dimensão do de Santa Maria não é de estranhar que o futuro chegue mais cedo em termos de terapêuticas. "Neste momento, temos cerca de 100 ensaios clínicos, uns a iniciar, outros em pleno recrutamento e outros a terminar", afirma a farmacêutica Tatiana Bento, a coordenadora do departamento. "De nós depende toda a parte regulamentar, porque os ensaios clínicos são feitos em todo o hospital, a preparação da medicação e a cedência ao doente. A maioria é na área da oncologia, que é a que tem maior desenvolvimento nas terapêuticas de imunoterapia. Mas também temos ensaios para outras patologias, como esclerose múltipla, da doença dos pezinhos, etc".

Ao nosso lado, no corredor, abre-se a porta de uma sala repleta de armários, do chão ao tecto. É aqui que estão guardados todos os dossiers, guias, registos, medicação, toda a informação dos ensaios que são feitos. Para Tatiana Bento, trabalhar ali é uma mais valia: "Estamos sempre à frente dos nossos colegas, cinco ou seis anos, nas terapêuticas. Nós já estamos no futuro. Já estamos a manipular os novos medicamentos e a observar as reacções dos doentes. E isso é fascinante".

Quem trabalha no laboratório de controlo de qualidade também reclama o mesmo para a sua função. João Paulo Cruz diz que aquele laboratório deve ser o único que ainda existe nos hospitais portugueses. "Aqui fazemos a análise das substâncias que vamos manipular. Só depois de serem aprovadas por nós é que podem seguir para consumo no hospital", diz, acrescentando: "Uma das funções é avaliar matérias primas que temos de adquirir para preparar medicamentos para as crianças, já que a indústria farmacêutica não investe tanto nesta área por considerar que não é rentável". Esta é igualmente uma das mais valias de um serviço de farmácia hospitalar. "O que fazemos é preparar substâncias que só existem em dosagens de adultos para crianças".

Quando chegamos ao último sector, as palavras em negro numa folha branca, espalhada em vários sítios, chamam a atenção: "Separados somos mais fortes". O slogan serve para lembrar cada um de como se pode proteger da covid-19. "É um sector onde trabalham muitos técnicos e o espaço entre eles não pode ser descurado", explica João Paulo Cruz, para afirmar logo a a seguir e a sorrir que ali a robotização faz maravilhas. "Aqui é o robot que diz aos técnicos para onde vai o medicamento e de forma mais rápida, porque há cada vez mais doentes e as equipas físicas começam a ser diminutas", argumenta.

À nossa frente, "torres" de prateleiras horizontais que rodam para trazer os medicamentos que são necessários repor em cada serviço. Basta o técnico introduzir informaticamente o nome do serviço. "Quando o técnico chega às 07.00, coloca o nome do serviço do computador, por exemplo, reumatologia, e o robot vai buscar de imediato todos os medicamentos que foram solicitados e trá-los ao técnico, que os recolhe e os vai distribuir". Mas há já um projecto a germinar para que os medicamentos cheguem mais rápido ao serviço e por condutas de vácuo.

Mais à frente, o mesmo serviço, mas em Kardex verticais. "São os medicamentos para cada doente internado. Cada caixa tem a sua identificação, serviço, cama e a dose adequada e tudo tem de ser confirmado".

Quem entra num hospital pensa que "já vem tudo feito, mas não é assim", garantem os farmacêuticos. Se os medicamentos chegam aos doentes internados em segurança, na dose certa, sem erros ou trocas é porque há todo um trabalho contínuo e rigoroso que envolve muito controlo desde a prescrição à produção e até à distribuição.

Um retracto em números

150

Este é o número de profissionais no serviço de farmácia - 62 farmacêuticos, 47 técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, 15 administrativos e 30 assistentes operacionais. A média de idades ronda os 40 anos. "É um serviço muito jovem".

100

Este é o número de ensaios clínicos com medicamentos que estão a ser realizados pelo serviço. A maioria na área oncológica. "Aqui estamos cinco a seis anos à frente dos nossos colegas. Estamos a avaliar as terapêuticas inovadoras que irão tratar os doentes".

20 000

Este é o número médio de medicamentos que o serviço de farmácia tem de preparar diariamente para os cerca de mil doentes internados no hospital. Desde soluções orais, xaropes para a pediatria até aos medicamentos para os cuidados intensivos.

40 000

É o número de caixas de medicamentos que chegam ao hospital por semana vindos da indústria farmacêutica. Num ano, estima-se que sejam mais de dois milhões de medicamentos que entram no hospital.

2 000 000

Este é o número de medicamentos que são reembalados por ano no hospital. Uma unidade que tem de existir para transformar os medicamentos que chegam em caixa em doses unitárias para servir as necessidades dos serviços. Tudo porque a indústria não considera rentável a dose unitária.

 

Fonte: Site do Jornal "Diário de Notícias" e autor em 17 de Maio de 2021.

Sociedade Portuguesa de Hipertensão lança campanha de sensibilização nas farmácias

Sociedade Portuguesa de Hipertensão lança campanha de sensibilização nas farmácias - 

Pandemia prejudicou controlo da tensão arterial. Campanha tem como objectivo levar os portugueses a medir a tensão.

A Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH) e as Farmácias Portuguesas lançam na segunda-feira uma campanha de sensibilização que tem como objectivo levar os portugueses a medir a sua tensão arterial.

A campanha, denominada “A Hipertensão não pode usar Máscara”, assinala o Dia Mundial da Hipertensão e vai decorrer até 24 de Maio em todas as farmácias portuguesas.

O coordenador da campanha, o cardiologista Manuel Carvalho Rodrigues sublinhou à Lusa a importância desta acção num cenário de pandemia, “que teve efeitos negativos no controlo dos níveis de tensão arterial dos portugueses”.

Segundo o cardiologista, a covid-19 fez com que se “deixasse para trás e, de alguma maneira, para o esquecimento patologias como a hipertensão arterial, que tem consequências graves como o acidente vascular cerebral e o enfarte do miocárdio que, quer se queira quer não, continuam a ser a principal causa de morte em Portugal”.

O coordenador explicou que esta campanha de sensibilização irá funcionar de duas formas: “Irá dar respostas a quem nunca mediu a tensão arterial e a quem andava a ser acompanhado pelo médico e deixou de conseguir controlar os valores”.

A campanha é, por isso, dirigida a toda a população, especialmente quando se tem em conta que um quarto dos portugueses não sabe os seus valores de tensão arterial, o que é considerado preocupante.

A hipertensão “é uma patologia silenciosa, geralmente sem qualquer sintoma” e Manuel Carvalho Rodrigues defendeu que os portugueses “podem fazer muito” para evitá-la, embora haja uma “tendência natural para os valores aumentarem com a idade”.

“Devem ter cuidados no estilo de alimentação, o que passa sobretudo por limitar o sal. O desporto é um complemento neste campo, mas não é essencial. Se não há tempo para fazer exercício, tirem simplesmente o sal das refeições porque é mais fácil, vantajoso e tem melhores resultados”, explicou.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), as doenças cardiovasculares representavam 29,9% do total de óbitos a nível nacional em 2019, constituindo a primeira causa de morte em Portugal.

 

Fonte: Site da "saudeonline.pt"  e autor em 17 de Maio de 2021

É doente crónico? E se os medicamentos lhe fossem entregues em casa?

É doente crónico? E se os medicamentos lhe fossem entregues em casa? - 

O projecto estava delineado há tempos, mas a pandemia veio acelerar a sua aplicação. O objectivo era reduzir as idas de doentes ao hospital só para levantar medicação de continuidade. Em poucos dias, uma equipa do serviço de farmácia organizou tudo e as entregas começaram logo em Março de 2020. O resultado está à vista: 15 mil entregas a seis mil doentes, o que equivale a muitos milhares de medicamentos. "É o futuro", diz o director do serviço.

Depois da consulta com o pai no Hospital de Santa Maria, Manuel Carlos aproveita para ir à farmácia da unidade e ver se é possível levantar a medicação de continuidade para, pelo menos, três meses. O pai sofre de uma doença de sangue e é acompanhado na consulta de hematologia. Há muito que a sua rotina é a mesma de 50 em 50 dias. Sair do distrito de Setúbal, onde vive com o pai, para vir a Lisboa buscar uma caixa de 50 comprimidos. "Ele tem de tomar um comprimido diário, mas só podemos levantar uma caixa de mês e meio em mês e meio. Muitas vezes não tem consulta e tenho de vir sozinho a Lisboa só para isso. Hoje queria ver se consigo levar duas caixas. Começa a ser muito complicado no trabalho", conta ao DN.

Manuel Carlos teve de mudar o turno no trabalho para conseguir acompanhar o pai naquela manhã de terça-feira às análises, depois à consulta e por fim à farmácia hospitalar. É quase hora de almoço e ainda aguarda a sua vez para ser atendido. Pelo meio, conta até dez para acalmar o stress, o mesmo de sempre, ri-se, que surge quando pensa nas voltas que ainda tem de dar até chegar ao trabalho sem prejudicar o turno. Mas tudo é melhor do que ter de voltar daí a dias para passar pelo mesmo. Mas quando chega ao guichet é surpreendido e solta um grande: "Uau, a sério? Isso é possível? E basta pedir os medicamentos só três a quatro dias antes?"

Manuel Carlos não queria acreditar no que a funcionária lhe dizia. "Sabe que há um programa de entrega de medicamentos em proximidade? O seu pai reúne os requisitos e pode passar a receber a medicação em casa ou na farmácia mais próxima. Vai à internet, entra na nossa plataforma e antes de acabar a medicação preenche o formulário com os dados dele. Depois será contactado por um administrativo do hospital para marcar o dia e a hora da entrega e ainda vai receber o telefonema de um farmacêutico que vai avaliar a condição do seu pai para ver se há necessidade de ajustes à medicação ou até de falar com o médico dele."

Mais uma vez, Manuel Carlos não queria acreditar que tal fosse possível. Aceitou de imediato, pelo pai e por ele. O "uau" que lhe saiu não o foi único que os profissionais do serviço de farmácia do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, que inclui o Hospital de Santa Maria, registaram durante este ano, de cada vez que falaram do programa a um doente, a familiares ou até a médicos, sobretudo àqueles que estão mais envolvidos com o tipo de doentes a que o programa se destina, doentes hematológicos, de reumatologia, nefrologia, neurologia, infecciologia, etc.

Aliás, têm sido muitos os "uaus" ouvidos. Talvez por isto mesmo, e ao fim de um ano, o Programa de Acesso ao Medicamento em Proximidade tenha recebido nota dez dos utentes no inquérito de satisfação realizado pelo serviço de farmácia. "O hospital tem cerca de 17 mil doentes que necessitam de dispensa de medicação. Todos estes doentes tinham de vir várias vezes à unidade só para levantar a medicação. Com este programa não precisam de o fazer", explica o director do serviço de farmácia, João Paulo Cruz.

Milhares de medicamentos entregues em casa

O resultado está à vista: 15 mil entregas a seis mil doentes em todo o país, incluindo Madeira e Açores. A grande maioria das entregas foi ao domicílio, uma pequena percentagem em farmácias comunitárias e em instituições, como lares. No caso das ilhas, as entregas foram feitas em farmácias hospitalares. "Isto significa que foram entregues muitos milhares de medicamentos, tendo em conta que cada entrega a um doente envolve um, dois, três ou mais medicamentos", acrescenta o médico, aproveitando para reforçar os resultados obtidos no inquérito de satisfação. "Tivemos quase todas as questões com a nota máxima, desde a qualidade do serviço à segurança e ao tempo de espera."

João Paulo Cruz sorri, satisfeito, quando o afirma. Tem os resultados do inquérito impressos em papel em cima da sua secretária, não os deixou apenas informatizados, e mostra-os com o orgulho, porque, no fundo, é o resultado do trabalho de toda uma equipa, de um serviço e de todo o hospital. "Têm sido muitos os profissionais que se têm empenhado neste projecto, começando logo pela nossa equipa, do conselho de administração até ao motorista que entrega o medicamento em casa ao doente. E a recompensa é esta: a satisfação dos doente." É mais do que isso, como diz, afinal, a recompensa pode mesmo ser "o futuro".

O projecto estava delineado há um tempo por ser o desejo de alguns doentes e da equipa do serviço de farmácia, mas sem data marcada para avançar, embora conjugasse à partida vários objectivos: facilitar a vida aos doentes e aos médicos, agilizar os serviços, aumentando a sua eficácia, evitar o desperdício de medicamentos e "tentar acabar com uma certa dependência do hospital, que deve ser um centro só para cuidados diferenciados" , defende João Paulo Cruz.

Tudo objectivos que enquanto o programa não foi aplicado se mantiveram na gaveta. Mas nem tudo o que a pandemia trouxe atrás foi mau, este programa de proximidade é exemplo disso, porque teve de avançar forçosamente para dar resposta aos doentes, evitando ao máximo as idas ao hospital. "No primeiro confinamento, chegámos a ter num só dia mais de 600 doentes na farmácia a querer levantar medicamentos, com o receio de poderem ficar com medicação em falta e isto não podia continuar", explica o director de serviço.

A proposta desenhada foi levada ao conselho de administração, que deu luz verde, e em poucos dias o programa estava a funcionar com eficácia e segurança. "É preciso não esquecer que é um programa de cedência de medicamentos que envolve muito dinheiro, são medicamentos muito caros, e o programa tinha de assegurar a sua rastreabilidade, desde que sai embalado da farmácia do hospital até à entrega ao doente. E isso é feito."

A par, e como forma de reforçar o acompanhamento ao doente, foi criada uma consulta farmacêutica, agora feita ou presencialmente ou por telefone, mas que esperam poder vir a ser por Zoom. Esta é feita por um farmacêutico que tem como objectivo aferir os efeitos da medicação, para saber se esta deve ser ou não ajustada ou até se há alguma sintomatologia que deva ser referida ao médico assistente.

"O que estamos a fazer agora é muito importante, permite controlar o que é prescrito ao doente e se esta prescrição é a adequada à sua condição, porque estamos a falar de doentes com VIH/sida, artrite reumatóide, psoríase, espondilite anquilosante, fibrose quística, hepatites, esclerose múltipla, doentes hematológicos e oncológicos, com hipertensão pulmonar e até de alguns doentes pediátricos." Um controlo que faz parte da prática de um farmacêutico hospitalar, já que toda a medicação prescrita e a sua posologia tem de ser validada por estes profissionais. Como diz João Paulo Cruz, "é um serviço de retaguarda fundamental".

Um desejo dos doentes e dos profissionais

A coordenadora do programa, Marisa Rodrigues, uma jovem farmacêutica, como a maior parte dos colegas que integram o serviço, confirma ao DN que a ideia de o criar e de o levar para a frente surgiu muito por influência dos doentes, embora "só tenha surgido agora em contexto de pandemia, mas era um desejo de muitos doentes, sobretudo dos que têm maior vulnerabilidade e dificuldade em se deslocarem de forma regular ou para os que geograficamente estão mais distantes e têm incapacidade económica. Muitos, cada vez que aqui vinham para levantar a sua terapêutica, acabavam por nos pedir algo que os aliviasse. E ao longo do tempo fomos delineando este projecto, que acabou por se catapultar há um ano", explica.

Hoje, a sua satisfação também é grande, e manifesta-a na visita que fazemos à farmácia hospitalar, onde em seis postigos, rigorosamente divididos, com funcionários de máscara e de luvas, se dirigem, um a um, doentes que têm de levantar a sua medicação presencialmente. Na sala de espera, aguardam cinco pessoas, o máximo que é permitido em tempo de pandemia, os restantes no espaço exterior, mesmo assim, diariamente, ainda há dias com 200 ou mais doentes.

"O programa de proximidade também abrange o funcionamento deste serviço, porque quanto menos pessoas vierem buscar a medicação presencialmente, mais será possível melhorar o atendimento", argumenta. Marisa Rodrigues explica que o programa começou com uma dimensão pequena de doentes, mas, agora, já vai em seis mil e, em breve, espera que sejam muitos mais. "Acreditamos que o programa vai continuar. Aliás, quando o lançámos foi logo com essa lógica e perspectiva e, ao longo deste ano, temos vindo a ajustar e a melhorar algumas situações, quer a nível de condições quer de acompanhamento do doente", reforça, exemplificando: "A consulta de seguimento farmacêutico que fazemos em simultâneo com a entrega da medicação, quer seja presencial quer seja por telefone, dá-nos maior proximidade ao doente e uma informação muito mais robusta sobre o seu estado e sobre a medicação que lhe é mais adequada. Uma das grandes mais-valias deste programa, que conjuga a entrega em proximidade e a presencial, também é esta."

Uma consulta que, em termos de informática, "já está interligada com o sistema de consultas médicas para que o colega possa ir acompanhando o efeito da medicação e o estado do doente. No limite, tanto nós como o médico assistente ficamos com informação just in time sobre o doente em alguns aspectos que podem ser muito importantes", pormenoriza João Paulo Cruz.

No início, "ainda houve doentes que resistiram à mudança, sobretudo doentes com VIH/sida, pensamos que talvez pela estigmatização que a doença ainda tem. Não queriam aceder ao programa por receio de os medicamentos lhes chegarem ao domicílio ou à farmácia comunitária, alguém que não eles poder ver o que era e ficarem a saber sobre a sua doença", justifica o médico. Agora, já não é assim, "os doentes com VIH estão em quarto lugar na adesão ao programa". Mas muitos aderiram de imediato e outros foram eles próprios a pedir para o integrarem e temos cada vez mais médicos a aconselharem os seus doentes para o fazerem. É que "o programa não veio só aliviar os doentes. Veio também agilizar a prática clínica e o funcionamento dos serviços hospitalares, nomeadamente no que toca a consultas que tinham de ser agendadas só para pedir medicação", argumenta ainda. Por isso, repete, "isto é o futuro".

As deslocações contínuas foram substituídas. Primeiro, bastava um e-mail, agora por um pedido na plataforma do hospital destinada à cedência de medicação, onde o doente apenas tem de preencher o formulário com os seus dados para a equipa de farmacêuticos a trabalhar no projecto ter acesso à medicação que está a tomar - e basta fazer isto três a quatro dias antes de a medicação acabar. O farmacêutico valida a medicação e faz seguir o processo para que o doente a receba onde pretende. "Quando se trata de um doente que não se entende com a internet, funciona-se com o sistema clássico, o pedido é feito via telefone à nossa equipa." Até agora, as entregas têm sido para períodos controlados, "para dois a três meses ou, se possível, entre consultas, para quatro a cinco meses, mas o objectivo é alargar esta cedência e obter um impacto mais significativo".

Do ponto de vista de logística e para satisfazer as necessidades dos doentes, "o programa foi pensado para fazer a cedência de um medicamento a temperatura ambiente e a temperatura refrigerada, incluindo medicamentos biológicos que são muito sensíveis, o que só é possível porque temos um circuito de avaliação de qualidade montado e nunca houve problemas. Os medicamentos têm chegado sempre em condições ao doente". Mais do que isso, têm chegado. Esta é a garantia para fechar cada pedido. "O processo só fica concluído quando o doente, a farmácia comunitária ou a instituição onde o doente está confirmam terem recebido a entrega. Foi por isso que tivemos de integrar um processo de rastreabilidade muito grande para garantir a segurança do processo. Em caso de extravio o impacto económico seria um peso muito grande para o hospital", justifica João Paulo Cruz.

Dez profissionais para colocar tudo a mexer

Para avançar com o programa foi necessário contratar mais profissionais. A logística pode ser simples para o utente, mas para os serviços acaba por ser mais complexa do que a cedência presencial. "Pudemos contratar alguns farmacêuticos no âmbito da pandemia e esperamos que estes possam continuar connosco", comenta João Paulo Cruz, desabafando: "Se não continuarem será muito difícil manter o que temos, esta é a nossa grande dúvida neste momento."

Ao todo, entraram mais cinco farmacêuticos, quatro ficaram no projecto e um teve de ir para a área de produção, onde precisávamos muito de pessoas. Há um que já teve o seu contracto revalidado, faltam os outros que estão a terminar." João Paulo Cruz manifesta-se: "Nem me diga nada. Já tivemos duas colegas que com o receio de os contractos não serem revalidados foram para outros hospitais e eles são precisos aqui." No global, explica, "estão neste projeto seis farmacêuticos, dois administrativos, um técnico e a coordenadora do projecto", confirma.

Quando batem à porta e é o motorista dos medicamentos

Mas a verdade é que o projecto envolve muitos outros profissionais. Uns foram alocados através da reorganização do hospital perante a pandemia e o confinamento, outros voluntariaram-se. "Um dos primeiros a dar o exemplo foi o presidente do conselho de administração, que disponibilizou o seu motorista para este projecto, que depois se empenhou e se voluntariou para o continuar a integrar", mas o mesmo aconteceu com outros profissionais.

"As pessoas empenharam-se todas muito no projecto. Acabaram por nos dizer que a gratidão que os doentes mostram quando eles chegam a suas casas com os medicamentos é uma grande recompensa", conta ao DN. Mas a entrega também está cargo de uma empresa de distribuição de medicamentos certificada pelo Infarmed. "Era uma das condições das farmácias comunitárias para integrarem o projecto e tivemos de contratar uma empresa para o efeito, que continua."

A pandemia surgiu. Foi um obstáculo ao serviço que prestavam, uma dificuldade maior para os utentes, mas a farmácia do Hospital de Santa Maria olhou para tudo como uma oportunidade. "Aproveitámos", confessam os médicos. "Tivemos de nos reorganizar e fazer que a tecnologia fosse posta ao dispor do hospital e dos doentes, o que nem sempre é fácil, mas acho que conseguimos", diz João Paulo Cruz.

Do lado dos doentes, não têm dúvidas de que este procedimento os tornou mais próximos e lhes trouxe mais questões e mais dúvidas por parte destes a que têm de responder. "Não sabemos se é por causa das vacinas, mas o que os doentes mais querem saber agora são os efeitos adversos que os medicamentos que estão a tomar podem gerar." Ou seja, mais um ganho: mais literacia em saúde através da ambulatorização dos cuidados.

 

Fonte: Site do Jornal "Diário de Notícias" e autor em 17 de Maio de 2021.