Portugal diminui globalmente as infecções em cirurgias no ano passado

Portugal diminui globalmente as infecções em cirurgias no ano passado - 

Portugal diminuiu globalmente as infecções em cirurgias no ano passado, apesar de terem aumentado ligeiramente nos serviços de neonatologia, disse à agência Lusa fonte do Programa Nacional de Prevenção e Controlo de Infecções e das Resistências aos Antimicrobianos (PPCIRA).

"A única infecção que, efectivamente, não conseguimos diminuir, que aumentou ligeiramente, foi a infecção em neonatologia", afirmou Isabel Neves, adjunta do PPCIRA, acrescentando que todas as unidades neonatais do país estão a participar num programa de vigilância, que abrange todos os bebés.

"Conseguimos diminuir globalmente a infecção do local cirúrgico. Dependendo do tipo de cirurgias, em algumas diminuímos muito, noutras aumentamos ligeiramente, mas no global diminuímos", disse.

Isabel Neves indicou que diminuiu, por exemplo, a pneumonia associada ao ventilador nas unidades de cuidados intensivos.

Hoje é apresentado um relatório que faz um ponto da situação verificada nos últimos cinco anos e, em particular entre 2017 e 2018, em relação aos programas de vigilância epidemiológica, ao consumo de antibióticos, às resistências aos antimicrobianos em Portugal e à adesão das unidades de saúde aos programas propostos pela DGS.

Num resumo a que a Lusa teve acesso, refere-se uma "evolução positiva das taxas de prevalência e de incidência das IACS (infecções associadas a cuidados de saúde) monitorizadas, com excepção da infecção da corrente sanguínea associada a cateter venoso central em Unidades de Cuidados Intensivos neonatais e de adultos, mas uma diminuição desta mesma infecção por Staphylococcus aureus resistente à meticilina)".

"Não atingimos todas as nossas metas, mas este trabalho de controlo de infecção e depois aquilo que se traduz em termos de resistências é um trabalho que não se vê da noite para o dia", defendeu a responsável.

A mudança, referiu, "implica mudanças estratégicas", em termos culturais e das estruturas organizadas nos cuidados de saúde, a par de acções para reduzir as infecções, o que "leva algum tempo".

"Estamos a fazer um caminho de positividade. Gostaríamos de ter tudo a diminuir, mas leva o seu tempo. É preciso congregar esforços", sustentou.

Isabel Neves sublinhou que as dotações nos hospitais, ao nível dos profissionais de saúde e dos recursos, têm-se "deteriorado desde 2011".

"Tem havido um esforço enorme, sobretudo as estruturas locais do PPCIRA para proporem esforços no sentido de conseguirem promover a melhoria e tem havido uma melhoria, uma mudança cultural importante na necessidade de termos boas práticas para a segurança dos doentes e dos profissionais", reiterou.

A mesma responsável revelou que Portugal diminuiu a resistência aos antibióticos em quase todas as bactérias que são mais importantes na Europa, mas considerou preocupante que a maior parte das resistências face a um tratamento de última linha se verifique pela produção de uma enzima que se transmite "de uma forma muito fácil".

"Temos de ter atenção não só aos doentes infectados, mas àqueles doentes que eventualmente podem ser transportadores desta bactéria, que são os doentes colonizados", preconizou.

Esta bactéria colonizada, explicou, "não lhes fará mal, em termos de dar infecção, mas eles transportam-na e podem ser veículos de transmissão, nomeadamente dentro dos hospitais, onde estão doentes fragilizados que podem ser contaminados por esta bactéria e terem uma infecção".

O documento contém recomendações às unidades de saúde, nomeadamente para melhorarem a prevenção e o controlo de infecções.

Isabel Neves argumentou que são necessários recursos informáticos para que a informação seja automática, por forma a saber-se se o doente "está a ser tratado correctamente".

Estima-se que, na Europa, cerca de 33.000 pessoas morrem por ano, com uma Infecção Associada aos Cuidados de Saúde (IACS).

 

Fonte:  Site "noticiasaominuto.com" e autor em 18 de Novembro de 2019.

Testes rápidos para ajudar a erradicar o VIH

Testes rápidos para ajudar a erradicar o VIH - 

Consórcio constituído por várias entidades e 21 farmácias do concelho de Cascais lançou um projecto para aumentar o número de rastreios do VIH e hepatites. Objectivo é contribuir para alcançar as metas fixadas pela ONU para o diagnóstico e tratamento das doenças.

Em 2014, o Programa Conjunto das Nações Unidas para o VIH/SIDA (ONUSIDA) lançou a iniciativa "Cidades na Via Rápida para Acabar com a Epidemia VIH", uma rede de parceria mundial das cidades com elevada carga de VIH.

Na que ficou conhecida como a Declaração de Paris, os signatários comprometeram-se a atingir até 2020 a primeira meta "90-90-90": 90% das pessoas que vivem com o Vírus da Imunodeficiência Humana sejam conhecedores do seu diagnóstico, 90% dos diagnosticados estejam em tratamento antirretrovírico e 90% das pessoas em tratamento apresentem, sustentadamente, carga vírica suprimida. Metas definidas para atingir o desígnio de erradicar a epidemia da sida até 2030.

Em maio de 2017, a Câmara de Cascais subscreveu a Declaração de Paris e no plano estratégico concelhio 2018/2020 estabeleceu como objectivo o aumento da realização de testes de rastreio de forma a promover a detecção precoce e aumentar a proporção de indivíduos com conhecimento do seu estatuto serológico, não só para o VIH mas também para as hepatites B e C.

E é na sequência deste compromisso que, em 2018, nasce o projecto "Prevenção e rastreio de VIH" da Associação Portuguesa para a Prevenção e Desafio à SIDA (Ser+), que, num consórcio com várias entidades, nomeadamente 21 farmácias comunitárias do concelho, assumiu o objectivo de "aumentar os locais de testes rápidos no território de Cascais", recorda Andreia Pinto Ferreira, coordenadora geral da Ser+.

1.020

Testes rápidos

Em menos de um ano, este projecto já possibilitou a realização de 1.020 testes rápidos

Nove meses depois, as farmácias do concelho já tinham realizado 1.020 testes rápidos, de forma anónima, confidencial e gratuita, dos quais 558 para o VIH.

Em relação aos testes da hepatite, que no caso da B só começaram em Março deste ano, foram efectuados 462. Andreia Pinto Ferreira destaca ainda o número de utentes que realizaram o teste pela primeira vez na vida. "O aumento do número de rastreios é uma prioridade de saúde pública e quanto mais cedo conseguirmos detectar uma destas infecções, maior será o sucesso do tratamento e melhor será a saúde da pessoa em causa, reduzindo-se igualmente a possibilidade de transmitir a infecção", sublinha.

Este projecto conta com a participação do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) de Cascais, da Equipa de Tratamento do Eixo Oeiras/Cascais da Toxicodependência da Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (DICAD) da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, do Hospital de Cascais e da Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, através dos estabelecimentos do Linhó e de Tires, e da Associação Nacional de Farmácias (ANF).

Perspectivar o controlo e erradicar as infecções

Além de destacar o facto de este projecto pioneiro ter mobilizado entidades de diferentes naturezas (pública, privada e social) e perfis distintos (comunidade, centros de saúde, farmácias, hospital e serviços de saúde), Andreia Pinto Ferreira salienta que "todos os ‘stakeholders’ têm um papel relevante a desempenhar e os resultados preliminares já alcançados com o projecto-piloto em curso têm excelentes indicadores".

A responsável da associação garantiu que o aumento da "facilidade e acessibilidade destes testes através do envolvimento da rede de proximidade das farmácias contribuiu já para que hoje possamos perspectivar o controlo destas infecções e, num futuro, erradicá-las".

Andreia Pinto Ferreira conta que a avaliação feita em 2017 sobre o primeiro e "mais frágil" indicador - que estimou que 87,5% das pessoas viviam com a infecção por VIH em Cascais já estavam diagnosticadas - obrigou "cada uma das entidades a posicionar-se estrategicamente no território com o objectivo de implementar acções inovadoras ou melhorar as actuais de forma a alcançar até 2020, os 90%".

Além de "flyers" e cartazes sobre o serviço dirigido à população e um site (www.cascaissemsida.com) com os locais para realizar o rastreio e os parceiros envolvidos, a coordenadora geral da Ser+ destacou os resultados dos questionários aos utilizadores do projecto.

Uma das principais conclusões é que 20% dos utentes que realizaram os testes rápidos disseram que nunca o tinham feito e quase metade (47,2%) fizeram-no por terem tido uma "relação sexual desprotegida".

A figura

Andreia Pinto Ferreira

Coordenadora geral da Associação Ser+

Andreia Pinto Ferreira, nasceu em 1973, é formada em Serviço Social, e é, desde 2001, coordenadora geral da Associação Ser+. Desde 2017 é a responsável por fortalecer a coordenação entre os vários parceiros do Consórcio de Cascais no âmbito do projecto, "Cascais, na Via Rápida para Acabar com o VIH e Eliminar a Hepatite C até 2030".

Sílvia Rodrigues é outra das figuras centrais deste projecto. Esta farmacêutica é vogal da direcção da Associação Nacional de Farmácias (ANF) desde 2013, presidente do conselho de administração do Infosaúde e directora da revista Saúda.

Andreia Pinto Ferreira

Coordenadora geral da Associação Ser+

Projecto contribuiu para alargar acesso

Que balanço é que faz do projecto "Prevenção e Rastreio de VIH"?

Em menos de um ano de projecto, as 21 farmácias de Cascais envolvidas contribuíram positivamente para o acesso alargado à rede de farmácias, com mais utentes a realizar testes pela 1.ª vez (41,1% no VIH); o acesso a populações mais vulneráveis (25,6% dos utentes são estrangeiros); e o acesso a novas sub-populações mais jovens e mais velhas (dos utentes que nunca fizeram teste, 56,2% têm 18-34 anos e 10,1% têm +65 anos).

[Projecto] terá impacto positivo noutros municípios que estejam em vias de aderir.

ANDREIA PINTO FERREIRA

Que opiniões recolheram junto da população?

Salientamos que 50% dos utentes consideraram o "reduzido tempo de espera para ser atendido" (57,9%), a "privacidade do atendimento" (57,1%), a "confiança no farmacêutico" (51,8%) e "horário de funcionamento adequado às necessidades" (50,9%) como factores extremamente importantes na escolha de fazer o teste.

Que contributos traz a Cascais e outras câmaras?

O município de Cascais tem sido pioneiro na criação de sinergias entre os diferentes parceiros, que viabilizaram a implementação no terreno do Fast Track Cities, o que também terá um impacto positivo noutros municípios que já tenham aderido ou estejam em vias de aderir a este desafio.

 

Fonte: Site do "Jornal Negócios" e autor em 15 de Novembro de 2019.

Há hospitais afectados diariamente por rupturas de medicamentos

Há hospitais afectados diariamente por rupturas de medicamentos - 

Inquérito promovido pela Associação dos Administradores Hospitalares e Ordem dos Farmacêuticos revela que em 2018 as falhas de fornecimento de medicamentos foram consideradas “um problema grave” para os hospitais do SNS. Das unidades que responderam, 39% disseram que enfrentaram este problema “diariamente”.

Todos os hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que responderam ao Índex Nacional do Acesso ao Medicamento Hospitalar, que analisa o ano de 2018, consideraram as rupturas de fornecimento de medicamentos “um problema grave”. Das unidades que responderam ao inquérito, 39% afirmaram que enfrentaram este problema “diariamente” e outros 30,4% “semanalmente”.

Os resultados do inquérito promovido pela Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH) em parceria com a Ordem dos Farmacêuticos (OF), a que o PÚBLICO teve acesso, são apresentados esta sexta-feira em Lisboa. A recolha de dados foi feita através de um questionário electrónico enviado a 49 hospitais do SNS entre os dias 15 e 30 de Outubro deste ano. Responderam 23 (47%).

As falhas de fornecimento de medicamentos não afectaram só as farmácias comunitárias. Para 26,1% dos hospitais inquiridos “é um problema grave que afecta todos os medicamentos”, 30,4% disse que “afecta essencialmente medicamentos com genéricos” e outros 43,5% que “afecta apenas alguns medicamentos”. Uma das causas que apontam são “os preços excessivamente baixos dos medicamentos genéricos”.

Alexandre Lourenço, presidente da APAH, diz que “os hospitais acabam por optar por comprar medicamentos mais caros, por vezes menos adaptados à situação dos doentes, ou comprar fora do país”. “Também fazem partilhas entre eles com o objectivo de minimizar o impacto para o doente. Só numa lógica de SNS e de rede é possível garantir isto”, diz.

Segundo o inquérito, 39,1% das unidades disseram que as rupturas se verificaram diariamente, 30,4% semanalmente e percentagem idêntica disse “mensalmente”. Rogério Gaspar, coordenador do estudo e professor da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, assume que esta resposta foi uma “surpresa”. “Esperaria alguma frequência de rupturas, mas se juntar os grupos que dizem diariamente e semanalmente estamos a falar de 70% das unidades. É enorme e deve preocupar muito”, diz.

Alexandre Lourenço assegura que “os doentes não ficam sem assistência” e que “as rupturas podem ser resolvidas no mesmo dia”. “Podemos estar a falar de situações pontuais. As farmácias hospitalares têm 2000 referências de medicamentos”, reforça, referindo que também é preciso “melhorar a logística dos hospitais” com sistemas que monitorizem os stocks de medicamentos nas enfermarias e os prazos de validade para maximizar toda a sua utilização.

Francisco Ramos, presidente do Fórum do Medicamento — evento onde o índex vai ser apresentado — e ex-secretário de Estado da Saúde, fala numa situação multifactorial. Medicamentos que “têm preços de tal forma baixos que que os laboratórios tendem a descontinuar”, questões administrativas relacionadas com a compra centralizada nomeadamente a necessidade de antecipar a decisão da escolha do vencedor “para que a empresa possa abastecer os hospitais sem nenhum problema” e a exportação paralela para outros países europeus.

Indica ainda outro factor: “Uma das formas que o Infarmed e o Ministério da Saúde têm de controlar o volume de gastos é pôr tectos de despesa. Do que sabemos, algumas empresas quando atingem esse tecto tentam limitar o fornecimento de medicamentos. Isso exige uma maior fiscalização do Infarmed e provavelmente exigirá também que se encontre um novo modelo de controlo de gastos que não conflitue com a necessidade de abastecimento do mercado.”

Acesso à inovação

Os hospitais disseram ter acesso a medicamentos inovadores, com 56,5% das unidades a utilizá-los ainda antes da aprovação por parte da Agência Europeia do Medicamento. Como foi o caso da bebé Matilde, que sofre de atrofia muscular espinhal. Também no caso dos medicamentos aprovados para entrar no mercado, mas em que ainda se está a negociar a comparticipação do Estado tem havido resposta. Dos 1730 pedidos de autorização de utilização excepcional feitos pelos hospitais para aquisição desses fármacos, 1494 foram aprovados pelo Infarmed.

“Não fica evidente nenhuma restrição importante de acesso a novos medicamentos. O que fica evidente neste estudo é a falta de avaliação dos hospitais se os medicamentos dão aquilo que prometem ou não”, afirma Francisco Ramos, referindo-se ao facto de a maioria das instituições só monitorizar o número de doentes tratados e não analisar a qualidade e eficácia dos tratamentos. Reconhece que “a escassez de recursos humanos, sobretudo técnicos superiores ligados à gestão, fez com que ainda não tivesse sido possível dar resposta positiva” aos projectos de criação de registos e sistemas de monitorização, que estavam em estudo no ministério.

Rogério Gaspar explica que o sistema do medicamento tem suporte na avaliação dos níveis de segurança quando há autorização de introdução, “mas também da grande carga de acompanhamento do perfil de segurança durante o seu ciclo de vida”. “Se não está a ser contemplado nos hospitais fico preocupado”, assume.

“Estamos a usar tecnologia muito dispendiosa, com grandes efeitos sobre a saúde das pessoas e que criam grandes expectativas. E é importante saber que resultados temos. Faltam recursos técnicos capazes de fazer essa avaliação”, aponta Alexandre Lourenço, que recorda que 61% dos hospitais identificaram a falta de farmacêuticos e 52% de pessoal no aprovisionamento, elementos essenciais no processo de compra.

O inquérito mostrou também que há um intervalo de tempo entre a autorização do Infarmed e a compra do medicamento por parte do hospital. No caso dos medicamentos sem financiamento, a média foi de 25 dias. Porém, houve hospitais que demoraram três dias a comprar e outros levaram 120 dias. “Há uma assimetria nas práticas das várias instituições. Devia existir, como existe para as consultas e cirurgias, um tempo máximo de resposta garantido para a dispensa dos medicamentos aos doentes por parte dos hospitais”, propõe Alexandre Lourenço. Normas que podiam “ser trabalhadas em conjunto pelos hospitais, Infarmed, ordens dos Farmacêuticos e dos Médicos”.

 

Fonte: Site do Jornal "Público" e autor em 15 de Novembro de 2019.

Pedidos de junta médica dispararam 210% em seis anos

Pedidos de junta médica dispararam 210% em seis anos - 

O aumento de pedidos de juntas médicas mais do que quadruplicou em seis anos. Em média, Sistema Nacional de Saúde dá resposta em meio ano. Há casos de doentes terminais que morrem antes da resposta.

O aumento de pedidos de juntas médicas mais do que quadruplicou (210%) em seis anos, segundo o DN, e o Sistema Nacional de Saúde não tem capacidade de resposta. Apesar de em 2017 terem sido realizadas 66.429 avaliações de incapacidade por parte de médicos, o valor mais elevado dos últimos seis anos, o tempo de espera pode rondar oito meses a um ano. Os tempos médios rondam os seis meses.

De Janeiro de 2011 até Junho de 2018 foram realizadas mais de 435 mil juntas médicas em Portugal continental. Em 2017 houve um aumento de 210% em comparação com 2011 e de 9% em relação a 2016, segundo o DN.

Há casos em que foi tarde demais. Citado pelo DN, Mário Durval, director do departamento de Saúde Pública da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, revela que, quando fazia visitas a domicílios (possível em situações específicas), acontecia “chegar lá e a pessoa já ter morrido”.

O delegado de Saúde Regional de Lisboa e Vale do Tejo lamenta que haja menos médicos do que há uma década e que haja cada vez mais exigências da Segurança Social, mas considera que “os atrasos são inevitáveis”. Se os prazos das juntas, de 60 dias, fossem cumpridos, “deixaríamos para trás as actividades de saúde pública, nomeadamente a vigilância epidemiológica das doenças transmissíveis ou o planeamento em saúde”, diz o delegado.

Há cerca de 300 médicos de Saúde Pública disponíveis para juntas médicas, que permitem a isenção de taxas moderadoras e outros benefícios. Mário Duval revela que há centros de saúde em que os médicos de saúde pública gastam entre 50% e 75% do tempo com estas avaliações.

 

Fonte: Site do Jornal "Observador" e autor em 14 de Novembro de 2019.

Pfizer 2019 distingue investigação sobre autismo e cancro da mama

Pfizer 2019 distingue investigação sobre autismo e cancro da mama - 

Os Prémios Pfizer, os mais antigos em Portugal para a investigação biomédica, distinguem este ano a bióloga Guadalupe Cabral, por um trabalho sobre o cancro da mama, e João Peça, pelo estudo sobre o autismo, anunciou hoje a organização.

Guadalupe Cabral, da Universidade Nova de Lisboa, foi premiada na categoria de investigação clínica, enquanto João Peça, da Universidade de Coimbra, na de investigação básica. Cada um vai receber 25 mil euros.

Os Prémios Pfizer de Investigação são atribuídos anualmente, desde 1956, pela farmacêutica Pfizer, que os financia, e pela Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa, responsável pela avaliação das candidaturas.

A investigadora Guadalupe Cabral, do Centro de Estudos de Doenças Crónicas da Universidade Nova de Lisboa, descobriu um potencial marcador biológico capaz de predizer a resposta de doentes com cancro da mama à quimioterapia administrada antes da remoção do tumor numa cirurgia.

O marcador é a molécula HLA-DR, expressa nas células imunitárias linfócitos T citotóxicos.

A bióloga, especialista em imunologia, explicou à Lusa que nas doentes que não respondem à quimioterapia neoadjuvante, a que é dada para reduzir o tumor antes da cirurgia, os linfócitos T citotóxicos não estão activados porque não têm uma elevada expressão da HLA-DR.

"A elevada quantidade desta molécula significa que a célula está activa", frisou, assinalando que a HLA-DR pode ser um "marcador preditivo" da resposta do doente à quimioterapia.

Ou seja, o médico pode "usar a informação" obtida numa biópsia para decidir se uma doente deve receber a quimioterapia antes da cirurgia, porque o tratamento a vai beneficiar efectivamente, ou se, em contrapartida, deve ser direccionada para uma terapêutica alternativa mais adequada.

O trabalho realizado por Guadalupe Cabral consistiu na análise de amostras de tumores da mama de 30 doentes antes e depois da cirurgia, comparando os efeitos da quimioterapia administrada antes da remoção do tumor.

Em testes laboratoriais paralelos, a equipa verificou que os linfócitos T citotóxicos desempenham um papel importante na eliminação das células tumorais.

A investigadora irá validar os resultados com uma amostra maior de tumores de doentes.

João Peça, investigador do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, focou-se no estudo do gene 'Gprasp2', que "regula uma via de sinalização neuronal que está alterada em vários casos" de autismo.

Apesar de o gene ser responsável por "uma pequena percentagem das mutações conhecidas", pode, de acordo com a equipa, ser um potencial alvo terapêutico, uma vez que regula "uma via de sinalização neuronal comum que aparece desregulada" em vários tipos de autismo.

Esta "via de sinalização neuronal", que está desregulada nos autistas, é mediada por uns receptores específicos dos neurónios, os chamados receptores metabotrópicos de glutamato, proteínas envolvidas na comunicação entre neurónios (células cerebrais).

Numa próxima etapa, a equipa de João Peça pretende aprofundar o estudo do gene 'Gprasp2', bloqueando ou activando a expressão do regulador neuronal em ratinhos que mimetizam comportamentos autistas.

A dificuldade no tratamento do autismo, uma perturbação no comportamento, reside no facto de estar associado a mutações em mais de 300 genes, que têm funções neuronais muitos diversas que resultam em formas distintas de autismo.

Manifestando-se em crianças, o autismo caracteriza-se por comportamentos repetitivos e défices de comunicação e interacção social.

O júri que avaliou as candidaturas foi liderado por Luís Graça, que preside à Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa.

A entrega dos prémios será feita hoje no Teatro Thalia, em Lisboa.

 

Fonte:  Site "noticiasaominuto.com" e autor em 14 de Novembro de 2019.

Ferramenta ajuda oncologistas e governos a escolher medicamentos com maior benefício clínico

Ferramenta ajuda oncologistas e governos a escolher medicamentos com maior benefício clínico - 

Membro da Sociedade Europeia de Oncologia Médica, a médica Fátima Cardoso sugere que Infarmed possa usar a ferramenta, que pode trazer mais transparência às escolhas dos medicamentos a aprovar e comparticipar.

É o medicamento mais recente para tratar um cancro realmente inovador? Que benefícios traz em relação a outros? São perguntas que ganham maior importância à medida que a investigação coloca no mercado mais tratamentos e com preços muito elevados. A Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO, em inglês) criou uma ferramenta — a Escala de Benefício Clínico dos Medicamentos — para ajudar oncologistas e governos a avaliar os medicamentos que têm maior beneficio clínico para os doentes.

O significado de benefício clínico e a escala são tema de uma das sessões da 5.ª Conferência Internacional de Consenso sobre o Cancro da Mama Avançado (ABC5), que se inicia esta quinta-feira em Lisboa. Fátima Cardoso, coordenadora do evento e membro da direcção da ESMO, deixa a sugestão ao Infarmed, entidade que em Portugal avalia a introdução e comparticipação dos medicamentos: “Que utilize uma ferramenta que está a ser usada noutros países e que aumentaria a transparência de como as decisões são tomadas.”

“O que a escala faz é dar um valor objectivo ao benefício clínico que um determinado tratamento traz” de acordo com os resultados que mostrou em determinado ensaio clínico. A escala cruza vários tipos de dados, como por exemplo a sobrevida, a sobrevida sem progressão da doença, efeitos secundários e qualidade de vida e dá classificações. Se o tratamento for de âmbito curativo, a escala divide-se em A, B e C. Se for não curativo, a classificação é de 1 a 5.

“Os [medicamentos] que têm uma classificação de 4 ou 5 são claramente aqueles a que se devem dar prioridade em termos de reembolso e de disponibilidade. São aqueles cujo benefício clínico é importante. Na escala do sistema curativo, não se devem utilizar recursos no C”, explica a também directora da Unidade de Mama do Centro Clínico da Fundação Champalimaud.

O objectivo, “é ajudar os pagadores a colocarem prioridades”. “Se os recursos são limitados, deve-se optar pelo medicamento que dá maior benefício”, refere a médica. A escala traz mais duas vantagens: “Permite que todos falemos a mesma linguagem e quando dizemos que um medicamento é inovador e que traz um beneficio extraordinário, temos de o ver na escala. Por outro lado, a partir da aplicação da escala houve uma melhoria franca na forma como os ensaios clínicos são feitos.”

“Acho que ajudaria o Infarmed ter uma ferramenta objectiva que todos os oncologistas devem conhecer, que já é utilizada noutros países e que obriga a uma avaliação mais homogénea a nível europeu e mundial”, refere a especialista, salientando que não seria ferramenta única para se tomar a decisão. Para Fátima Cardoso seria também benéfico que a Agência Europeia do Medicamento (EMA, em inglês) e a norte-americana Food and Drug Administration (FDA) a pudessem usar.

“Os reguladores têm neste momento uma posição que é se o estudo for positivo, aprovam. E não colocam nas discussões qual o verdadeiramente o benefício adicional que esse medicamento traz”, refere. “Existem vários estudos publicados que olharam para cinco e dez anos de aprovações de medicamentos por parte da FDA e da EMA. Quando aplicada a escala — isto para todos os cancros —, só 20% dos medicamentos aprovados é que realmente têm classificações muito altas.” O estudo que analisou as aprovações da FDA usou uma escala que tem também em conta o preço dos medicamentos: “Concluiu que o preço não tem relação com o benefício que o medicamento traz, o que é inaceitável.”

Terapias complementares

Outra das sessões da conferência é dedicada às terapias complementares que podem atrasar ou limitar os efeitos dos tratamentos oncológicos. Chá Verde, matricária, alho, gengibre, ginko, ginseng, espinheiro-alvar castanha-da-índia e curcuma longa são apenas alguns exemplos da variedade de produtos naturais que muitos doentes usam.

“A maior parte dos consumidores das medicinas complementares são os doentes com cancro. Desses, a grande maioria são mulheres e a grande maioria com cancro da mama. Se não perguntarmos e ignorarmos que isto acontece, não só não estamos a ajudar como podemos estar a prejudicar os tratamentos que recomendamos”, refere Maria João Cardoso, professora da Faculdade de Medicina Nova de Lisboa.

A médica da Unidade da Mama do Centro Clínico Champalimaud vai apresentar um quadro com várias interacções que podem acontecer entre produtos naturais e tratamentos oncológicos convencionais. “A nossa preocupação são os produtos naturais que incluem a fitoterapia, portanto os derivados das plantas, e os suplementos alimentares, que para já não são incluídos na regulamentação habitual de medicação porque não são considerados como tal”, salienta, referindo que outras terapias complementares como acupunctura, reiki ou ioga “não têm nenhuma implicação negativa na medicina convencional”.

A médica reforça a necessidade de se falar com os doentes e alertar para os riscos associados. “É preciso chamar atenção que não é só saber se um produto é eficaz contra a doença ou seus efeitos laterais, mas se interfere activamente no tratamento que estamos a fazer”, refere, dando o exemplo do alho que consumido “em doses muito altas tem interferências sérias na coagulação”.

 

Fonte: Site do Jornal "Público" e autor em 14 de Novembro de 2019.