Consultora IMS prevê crescimento de 3,2% no mercado português até 2014

E também efeitos colaterais do novo pacote legislativo do governo.

O novo pacote legislativo para o medicamento pode levar alguns laboratórios a retirarem produtos do mercado português. É um dos efeitos colaterais das medidas agressivas para conter a despesa com os remédios vendidos na farmácia. "Portugal serve de referência a outros mercados, por exemplo a Turquia, que tem uma grande dimensão, vale muitos milhões e é emergente neste sector. Há empresas que podem optar por retirar o produto para não serem prejudicadas globalmente", explica Hugo Mendes, da consultora internacional IMS Health, que faz recolha e análise do mercado farmacêutico.

O conjunto de medidas governamentais esperadas para Junho - alterações de preço e mudança nas comparticipações para favorecer os tratamentos mais baratos - provocarão efeitos ainda difíceis de analisar. Até porque, explica, dependerão da forma como a indústria reagir. Porém, se os laboratórios considerarem que a descida é tal que põe em causa as suas receitas globais, poderão optar por retirá-los das prateleiras das farmácias portuguesas. É uma forma de o país deixar de servir de referência à fixação de preços noutros estados e impedir perdas globais de receitas.

Ainda sem aferir o impacto da nova legislação, a IMS fez as contas e prevê que o mercado de medicamentos em Portugal cresça a uma média de 3,2% nos próximos anos. Em 2010, a estimativa é de 3,7%, para um volume global que ronda os 4 mil milhões de euros. Quando chegar 2014, este negócio movimentará 4,55 mil milhões, com os medicamentos consumidos nos hospitais a representarem a maior fatia do crescimento (sempre acima dos 4% anuais.

Apesar desta tendência, o governo quer travar o aumento dos custos em comparticipações e prevê no Orçamento do Estado gastar apenas mais 1% nas farmácias e 2% nos hospitais. Estes valores, admite Hugo Mendes, "nunca se verificaram".

As previsões da IMS dizem que, apesar da crise, a venda de medicamentos irá crescer anualmente entre 5% e 8% no mercado mundial. Nos países desenvolvidos, a tendência é conter esta factura e são vários os que recorrem a medidas para evitar o rombo nos cofres do Estado. Se o corte na despesa estará sob uma forte pressão numa parte do mundo, há uma série de países em que os gastos deverão aumentar, como nos mercados emergentes, onde a venda de medicamentos deverá crescer entre 14% e 17% ao ano até 2014. Em 2014 as estimativas apontam para que sejam movimentados 820 mil milhões de euros (1,1 biliões de dólares) neste sector. Já em 2011, a China passa a terceiro mercado farmacêutico mundial.

A boa notícia para os próximos anos é o facto de muitos dos medicamentos que hoje são campeões de vendas estarem prestes a perder a patente, o que permitirá a sua replicação em genéricos. A entrada de genéricos acontecerá nos tratamentos responsáveis pelo maior volume de vendas: cardiovasculares, aparelho digestivo, alguns inflamatórios, antidepressivos e antipsicóticos.

A perda de patentes e o aparecimento de alternativas de marcas brancas permitirão poupar milhões. O exemplo é o Plavix, produto para o aparelho circulatório, que perdeu recentemente a patente. O surgimento de genéricos fez com que, em apenas 12 meses, passasse de campeão de vendas para o nono lugar da tabela.

Fonte: Jornal "i" de 22 de Abril de 2010 e autor