Exportação de medicamentos valeu 959 milhões de euros a Portugal

Exportação de medicamentos valeu 959 milhões de euros a Portugal - 

Houve um ligeiro decréscimo em 2017 em relação ao encaixe conseguido no ano anterior, mas ainda assim este foi o segundo melhor valor desde 2010. Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido são os principais países compradores.

No ano passado Portugal vendeu medicamentos no valor de 959 milhões de euros. Um ligeiro decréscimo em relação ao encaixe conseguido no ano anterior, mas ainda assim o segundo melhor valor desde 2010 (444 milhões de euros). Sem grandes flutuações nos últimos anos no top dez dos principais países compradores, a lista é liderada pelos Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido.

Os produtos exportados são variados, entre substâncias activas, genéricos e medicamentos de marca. Há fármacos para doenças do sistema nervoso central, sistema cardíaco, epilepsia, doença de Parkinson, para níveis elevados de concentração de potássio no sangue, antibióticos, vacinas, entre outros.

De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística, enviados ao PÚBLICO, desde 2010 o percurso foi sempre a subir e a venda deste tipo de produtos atingiu o seu melhor valor em 2016, quando as exportações valeram 1020 milhões de euros. Nesse ano, os Estados Unidos representaram perto de 25% do valor das exportações, seguidos da Alemanha (15,2%) e Reino Unido (12,2%).

Os dados provisórios de 2017 – ano em que vendemos para mais de 140 países – mostram uma ligeira quebra de 6% em relação a 2016. O top três dos países compradores manteve-se inalterado, mas o peso do mercado norte-americano diminuiu. Tendência que se manteve nos primeiros sete meses deste ano, em que as exportações para os EUA se cifraram em cerca de 55 milhões de euros – menos 57,5% quando comparado com o período homólogo.

Os dados preliminares dos primeiros meses deste ano mostram um decréscimo no total das exportações em comparação com o mesmo período do ano passado: passaram de 617 milhões para 493 milhões de euros. Além dos Estados Unidos, também as vendas para o mercado angolano sofreram uma contracção significativa (menos 22,8%).

 

Produzir mais:

Para a Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (Apifarma), esta “ligeira flutuação” nas vendas no ano passado e aparente continuidade este ano “não permite assinalar uma tendência de redução do valor das exportações”. “De qualquer forma, a conjuntura observada em países como Angola, Brasil e Venezuela podem justificar alguma da perturbação registada”, admite a associação.

Paulo Lilaia, presidente da Associação Portuguesa de Medicamentos Genéricos e Biossimilares (Apogen), também não aponta razões concretas, mas salienta que “é preciso avaliar as exportações de medicamentos produzidos em Portugal e os que são exportados mas que não são produzidos no país”. “A minha percepção é que a quantidade e o valor de medicamentos produzidos cá e exportados continua a aumentar, o que poderá ter diminuído são os medicamentos importados e depois exportados em que Portugal serve de plataforma. O que traz valor e emprego é o que é produzido em Portugal”, diz, salientando que são várias as empresas que estão a produzir mais.

Já Joaquim Cunha, director executivo da Health Cluster Portugal – plataforma que tem associadas diversas empresas do sector da saúde e instituições académicas –, refere que o comportamento das vendas não foi igual ao longo destes sete meses, com sinais de recuperação no segundo trimestre. Por isso, acredita que este ano possa fechar em linha com 2017.

Os valores das importações não têm sofrido grandes oscilações nos últimos anos. Em 2017 Portugal importou medicamentos no valor de 1879 milhões de euros. Alemanha, Espanha e Reino Unido foram os países a quem mais comprámos.

 

Trabalho de “formiguinha”:

Os medicamentos são a maior fatia das exportações, mas não a única. Os dispositivos médicos e material consumível, como batas, campos cirúrgicos ou compressas, também têm uma expressão importante. “As exportações estarão na casa dos 300 milhões de euros. Tem crescido sempre, em 2010 eram 150 milhões”, salienta Joaquim Cunha, que refere que ao todo, em 2017, a saúde terá significado um encaixe perto dos 1,4 mil milhões de euros e um peso a rondar os 3% do total das exportações de bens.

Chegar aqui, acrescenta, representou um trabalho longo. “Em primeiro lugar das empresas. Um trabalho de formiguinha, de persistência e resiliência e os resultados estão a ter efeito. Em segundo lugar, começou a ser possível passar a mensagem da saúde como um forte motor do desenvolvimento económico e social e dar visibilidade ao sector.”

Paulo Lilaia fala do apoio do AICEP “para que as empresas internacionais possam fazer cá o seu investimento” e do apoio às empresas nacionais para que estas entrem no mercado estrangeiro. A Apifarma destaca a participação, pela primeira vez, de empresas portuguesas no evento CPhl North America 2018, que se realizou em Abril. Em Outubro estarão presentes na versão europeia que se realiza em Espanha.

“Este trabalho reforça o compromisso das empresas portuguesas com os projectos de internacionalização, com o investimento em I&D [investigação e desenvolvimento] e com a competência tecnológica de Portugal”, acrescenta a Apifarma, que lembra que “a indústria farmacêutica portuguesa enfrentou vários desafios legislativos e económicos que obrigaram a desafios acrescidos e a uma reorientação estratégica para os mercados internacionais”.

 

Captar o interesse estrangeiro:

A inovação tem sido a aposta da BIAL, empresa portuguesa que no ano passado registou uma facturação de 272 milhões de euros. A propósito do lançamento do seu medicamento da doença de Parkinson em Portugal – já estava à venda na Alemanha, Reino Unido e Espanha –, a farmacêutica recordou que os mercados internacionais têm um peso de 70% na facturação, quando em 2010 era de 30%. O medicamento para a epilepsia que lançaram em 2009 é comercializado em 44 países.

Em Junho deste ano, a OM Pharma, do Grupo Vifor Pharma, inaugurou a sua nova fábrica em Portugal, um investimento de 10 milhões de euros. Localizada em Alfragide, as instalações vão produzir um medicamento para o tratamento dos níveis elevados de concentração de potássio no sangue que será exportado para países de todo o mundo, incluindo Estados Unidos. Em 2000 a empresa já tinha deslocalizado parte da produção para Lisboa.

Dentro de três anos a Generis terá uma fábrica a funcionar em Rio Maior. Um investimento de 15 milhões de euros, com a criação directa de 100 postos de trabalho. Mas também indirectos com a criação de um curso de análises laboratoriais pela Escola Profissional de Rio Maior. Trata-se de uma unidade de recepção e embalamento de medicamentos a granel produzidos em Venda Nova (Amadora) e na Índia. Prevê-se a produção anual de 100 milhões de embalagens, o que significa um reforço da exportação.  Angola, Moçambique e Cabo Verde,  Irão, Líbano e Líbia são alguns dos países compradores.

 

Desafios do futuro:

As três associações são unânimes em dizer que Portugal tem potencial para continuar a crescer nesta área. O presidente da Apogen salienta o facto de sermos vistos como um “país com estabilidade política, o prestígio que a indústria portuguesa já conquistou, com um nível de qualificação elevado nesta área, uma relação positiva da qualidade-custo dos recursos humanos”.

“É essencial promover a importância do valor social e económico da saúde e o seu impacto transversal a toda a sociedade, dada a sua capacidade de gerar emprego, exportações e investimento em inovação”, reforça a Apifarma, que diz que há trabalho que deve ser aprofundado com vista à internacionalização. “Devemos reforçar medidas concretas como a redução de custos de contexto, apoios para promover a competitividade e fomentar a penetração das empresas que produzem em Portugal em novos mercados, ao mesmo tempo que investimos na criação de linhas de crédito para consolidar mercados ou ultrapassar desafios conjunturais.”

Joaquim Cunha afirma que Portugal “deve ambicionar duplicar a exportação”, mas reconhece os desafios: “Temos um tecido nacional capaz de crescer, mas se queremos dar o salto temos de ser capazes de atrair investimento estrangeiro. É muito importante a estabilidade fiscal e baixar a burocracia.”

 

Fonte: Site do Jornal "Público" e autor em 17 de Setembro de 2018