Falhar redução da hepatite C é "vergonha nacional" -
"Se Portugal falhar o compromisso que assumiu com a Organização Mundial de Saúde (OMS) de reduzir a incidência do vírus da hepatite C em 90% e a mortalidade associada em 65% até 2030, será uma verdadeira vergonha nacional." A afirmação é de Guilherme Macedo, director do serviço de Gastrenterologia do Centro Hospitalar de São João (CHSJ) e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, e foi proferida na conferência LETS END HEP C - Políticas e Ferramentas de Apoio à Decisão Política em Saúde, organizada em conjunto pela Assembleia da República e pela Universidade Católica Portuguesa.
A situação nos hospitais é muito preocupante e so passos no sentido de eliminar a doença enquanto problema de saúde pública até 2030 são manifestamente insuficientes, com os médicos a denunciarem grandes atrasos no acesso aos antivirais de acção directa, que hoje permitem eliminar o vírus. "No meu hospital a espera média é de cerca de seis meses", testemunhou Guilherme Macedo. Noutros hospitais, a espera é muito superior, ultrapassando um ano, garantiram diversos especialistas.
Como o Jornal Económico revelou na semana passada, so problemas devem-se a atrasos no acesso à medicação devido à alteração do modelo de contratualização, que até Janeiro de 2018 era centralizado na Administração Central do Sistema de Saúde. Actualmente, a compra é feita pelos hospitais, que em muitos casos, sufocados pelas dívidas a fornecedores, atrasam as aquisições o máximo que podem.
Presentes na sessão, os directores dos principais centros de tratamento de hepatite C nacionais manifestaram-se pouco optimistas com a situação actual. "Precisamos de começar a salvar vidas e de um plano nacional que comece a funcionar. Precisamos de voltar à estaca zero, ou seja, tratamento para toda a gente e de forma fácil. Não é aceitável. Falta acção política". aponta Rui Tato Marinho, director do serviço de Hepatologia do Hospital de Santa Maria. Para o responsável, "qualquer doente com cirrose é uma emergência patológica, o risco de cancro aumenta para o dobro ao fim de dois anos. E ainda temos muitos portugueses sem acesso ao medicamento".
Luís Mendão, presidente do Grupo de Activistas em Tratamentos, presente na sessão, revelou: "Em Setúbal não há ninguém que consiga iniciar tratamento em menos de uma ano, o que leva a que metade das pessoas com Hepatite C desistam antes de se tratarem".
Guilherme Macedo, responsável pela consulta no S. João, concorda: "Neste momento, mesmo com recursos limitados, podemos conseguir o objectivo de eliminação da hepatite C. Seria uma vergonha enorme para o nosso país, depois de ter tido as oportunidades que teve, depois terem sido criadas as condições, acabar por não cumprir a meta com que se comprometeu com a OMS".
Este objectivo, afirma Guilherme Macedo, "é claramente suprapartidário e supragovernamental". "Não podemos desperdiçar esta oportunidade", conclui.
Fonte: do "Jornal Económico" e autor em 22 de Março de 2019