Mercado dos medicamentos vale 2% da riqueza nacional

A maior parte dos lucros estão do lado da indústria, mas as farmácias querem aumentar a sua fatia do negócio.

3,4 mil milhões. É este o valor que paira por cima da cabeça de quem faz lóbi pelo sector do medicamento, entre os quais a Associação Nacional das Farmácias (ANF).


O líder, João Cordeiro, é especialista em pressão política e tem feito de tudo para colocar o pé em cada uma das três actividades que vivem à custa dos remédios. A ANF já está a competir com a indústria através da marca de medicamentos genéricos Almus. Por enquanto, os produtos são vendidos apenas em Espanha, mas vão chegar em breve às farmácias nacionais, avançou ao Expresso o administrador-delegado da Alliance Healthcare, Joaquim Simões. Esta distribuidora de produtos farmacêuticos é controlada pelas farmácias desde 2005, num negócio mal visto por alguns pares de Cordeiro. Muitos farmacêuticos ligados às cooperativas de distribuição sentiram-se traídos pela ANF, já que a estrutura que é alimentada pelo dinheiro das suas quotas passou a fazer-lhes concorrência. Mesmo com as jogadas de Cordeiro, a repartição do mercado não tem sofrido alterações significativas, num equilíbrio mantido à força da lei. Mais de 40% dos 3,4 mil milhões são pagos pelo erário público, uma factura suficientemente alta para manter o Estado no controlo. Com as margens comerciais definidas por decreto, a dimensão das fatias do bolo que cabem à indústria, distribuição e farmácias sofrem poucas oscilações. Porém, podem surgir mudanças dramáticas, caso avance a proposta do Governo de liberalizar o mercado (limitando-se a fixar apenas um preço máximo). Isso implica que cada um dos jogadores tenha de guerrear pelo seu quinhão e o cenário muda de figura. No topo da hierarquia irá, como é obvio, manter-se quem desenvolve e produz os remédios, seguindo-se as estruturas que os dispensam ao público. o elo mais farco são os retalhistas que actualmente têm para si apenas 6,5% do negócio, uma fatia "pequena" que é, no entanto, muito cobiçada. As farmacêuticas estão dispostas a abdicar dos grossistas especializados e a contratar operadores logísticos para fazer o serviço. Ou serem os próprios laboratórios a entregarem o produto directamente nas farmácias. Em princípio isso não acabará com a distribuição, mas irá certamente reduzir a concorrência. À tona de àgua ficarão apenas quem lidera o mercado, as multinacionais Alliance e OCP Portugal. O Governo está confiante que o mercado está maduro e que se vai regular por si próprio. Mas, a verdade é que o sector do medicamento vive dias agitados sem perspectivas de acalmia para tão cedo. A agitar as águas está a queixa contra as farmácias que a Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica fez na Autoridade da Concorrência e junto do Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro. Os laboratórios apontam o dedo à actividade empresarial da ANF, considerando-a violadora da lei pois entra em conflito com os interesses dos associados. Outra acusação é a de concentração e verticalização do negócio dada a presença da ANF em toda a cadeia dos medicamentos. O que num cenário de desregulação das margens coloca as farmácias em vantagem. Além disso, o Executivo também equaciona a hipótese de alguns medicamentos para o HIV e para as doenças oncológicas deixarem de ser um exclusivo dos hospitais. Porém, ao melhorar a acessibilidade dos doentes ao tratamento, o Executivo també vai estar a aumentar a facturação das farmácias. Ao Expresso, fonte oficial do gabinete do Secretário de Estado do Comércio (onde foi elaborada a proposta de alterar as regras de cálculo dos preços dos remédios) salienta que o documento ainda está em discussão e que, por isso, "vale o que vale". A indústria farmacêutica e a pequena distribuição não concordam com as alterações e estão a fazer pressão.

 

 

Fonte: Jornal Expresso de 13 de Junho 2009