Saiba quais são os medicamentos em teste para combater o coronavírus

Saiba quais são os medicamentos em teste para combater o coronavírus - 

Rritonavir, lopinavir, cloroquina e sobretudo remdesivir: é nestes medicamentos que reside actualmente a esperança de combate ao Covid-19.

127.863 pessoas infectadas, 78 das quais em Portugal; 4.718 mortos; 68.310 pessoas que contraíram o vírus mas recuperaram a saúde: às 13.30 horas de 12 de Março de 2020 é este o cenário mundial da pandemia do Covid-19, doença viral detectada pela primeira vez em Dezembro de 2019 na cidade chinesa de Wuhan.

Quatro meses depois, e ainda sem uma vacina à vista, há centenas de testes em modo activo no mundo (só na China, existem actualmente cerca de 300 estudos com a designação Covid-19 catalogados no Centro de Registo Chinês de Ensaios Clínicos), mas, apesar disso, até agora não existe qualquer tratamento do coronavíris com eficácia absolutamente comprovada.

Aprender com fármacos usados noutras doenças

Os principais testes para tratamentos incluem fármacos utilizados para tratar outras doenças que, pela sua composição, poderiam ser úteis para combater o novo coronavírus.

Alguns dos países mais afectados na propagação do vírus testaram medicação já existente. Segundo um artigo de investigadores chineses editado na revista médica britânica "The Lancet", o hospital Jin Yintan, na cidade chinesa de Wuhan, tratou já 41 pacientes com uma combinação dos remédios antivirais ritonavir e lopinavir, revelou a BBC.

Esse tratamento é muito usado em pacientes que possuem o HIV. Escreve a revista "Science" que esses antivirais inibiram a protease, uma enzima que tanto o HIV como o coronavírus utilizam para se multiplicar no organismo humano.

O artigo da "The Lancet" faz referência ainda a outro estudo, publicado na primeira década do ano 2000, no qual a combinação de medicamentos demonstrou "benefícios clínicos consideráveis" no tratamento de doentes com síndrome respiratória aguda grave, mais conhecida como Sars, outra infecção do tipo do coronavírus que já foi detectada em 2003.

Esses fármacos, juntamente com o interferon beta, habitualmente usado no tratamento de escleroses múltiplas, foram já usados em pacientes chineses e espanhóis.

O sucesso do paciente americano

Segundo o Departamento de Saúde do Estado de Washington, o primeiro paciente norte-americano a acusar Covid-19 foi tratado com remdesivir, o antiviral da empresa de biofarmacologia americana Gilead Sciences, e está agora totalmente saudável.

O paciente, homem, 35 anos de idade, residente no condado de Snohomish, Washington, teve alta no final de Fevereiro do Centro Médico Regional de Providence Everett após ter sido internado em meados de Janeiro, cinco dias depois de ter regressado de uma viagem a Wuhan, na China.

O paciente americano foi tratado numa unidade especial de isolamento num hospital que havia sido criado para o surto de Ébola registado há cinco anos e foi administrado esse medicamento experimental desenvolvido justamente para combater o Ébola. Antes de melhorar, esse homem piorou, acentuando sintomas como febre, tosse, fadiga, náuseas, vómitos e diarreia, mas 24 horas depois a melhoria foi significativa.

Simultaneamente, o Centro Médico da Universidade do Nebraska, nos EUA, revelou no mês passado estar também a testar a eficácia do antiviral remdesivir em pessoas contaminadas com o covid-19. Recorde-se que o remdesivir já foi usado no passado para tratar a Sars e a síndrome respiratória do médio oriente, conhecida como mers, que também é provocada por um tipo diferente de coronavírus de que se registou um surto já em 2012.

Segundo o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, o fármaco está também actualmente a ser testado na China.

OMS também aposta no remdesivir

"Neste momento, existe apenas um medicamento em que acreditamos e que poderá ter eficácia real: trata-se do remdesivir".

As palavras são de Bruce Aylward, o médico canadiano que chefiou a equipa da Organização Mundial de Saúde que foi enviada à China. Na altura dessas declarações, proferidas a 24 de Fevereiro em Pequim, Bruce Aylward foi taxativo: "É preciso darmos prioridade aos melhores medicamentos que nos forneçam conhecimento necessário para travar esta situação mais depressa e que nos possam dar ferramentas para reduzir a mortalidade", defendeu, sublinhando que "não faz sentido perder o foco com muitos estudos".

É preciso cautela, diz Organização Pan-americana

Segundo a revista "Nature" que pelo menos uma dezena de clínicas estão a testar os efeitos da cloroquina, um medicamento usado contra a malária e também doenças com capacidade auto-imune.

"A maioria dos medicamentos nos testes clínicos inibem componentes centrais no ciclo vital da infecção do coronavírus", escreve a "Nature".

Segundo esse artigo científico, a cloroquina bloqueia a penetração do vírus nas células; já o lopinavir e o ritonavir impedem a reprodução celular; quanto ao remdesivir, por sua vez inibe a síntese das proteínas.

Mas, apesar de todos os testes que ocorrem no mundo e de certos resultados animadores, a Organização Pan-americana de Saúde pede cautela.

"Obviamente os testes são válidos, mas não podemos recomendar oficialmente e de imediato esses tratamentos", disse à BBC News, Marcos Espinal, director do Departamento de Doenças Transmissíveis e Determinantes Ambientais da Saúde daquela Organização. E mais: "Devemos aguardar que os resultados e os métodos se confirmem, porque nesta altura não existe um tratamento indicado para o coronavírus", disse Marcos Espinal.

Segundo o médico, o único método de acção eficaz que existe nesta altura é o isolamento dos casos confirmados e a administração de respiração artificial para os casos mais graves.

 

Fonte: Site do "Jornal de Notícias" e autor em 12 de Março de 2020.