Saúde ultrapassa vinho do Porto

Portugal está a reunir saberes para transformar a área da saúde num cartão de visita e começa a apresentar resultados com aplauso internacional.

Portugal já está a exportar mais produtos e conhecimento na área da saúde do que vinho do Porto. A constatação é de Luís Portela, presidente da Bial e do Health Cluster Portugal - Pólo de Competitividade da Saúde, constituído por 86 organizações de todo o país.

Acresce que nenhum outro sector da economia portuguesa tem tantos doutorados a trabalhar nas empresas. A margem de progressão é ainda muito grande, visto que "há quantidade e qualidade no trabalho feito na área da saúde, quando comparado com a média europeia, mas o país está claramente abaixo no aproveitamento das suas mais- valias", dis Luís Portela. Ou seja, faz-se boa investigação, mas não é rentabilizada. "Os institutos de investigação na área da saúde têm conhecimentos fortes, mas têm ficado muito na ciência pela ciência, sem procurarem novos produtos nem serviços competitivos à escala global", comenta.

Isso é bem visível nas patentes registadas por investigadores e empresas portuguesas. A média comunitária é de 106 patentes por milhão de habitantes, enquanto Portugal com apenas sete, fica 15 vezes abaixo daquele número.

"Há conhecimento mas não há o hábito de o transferir - e é aí que queremos chegar", salienta o responsável pela empresa que acaba de apresentar o primeiro medicamento integralmente concebido em Portugal. Trata-se de um antiepiléptico inovador, dada a comodidade oferecida ao doente. Exige apenas uma toma diária e não estão referenciados efeitos colaterais. Inspirado no Medicon Valley, desenvolvido por mais de 260 instituições suecas e dinamarquesas sob o lema "onde a biotecnologia significa negócios", o Health Cluster Portugal identificou já algumas áreas prioritárias de intervenção como a geriatria, o cancro e as doenças neurodegenerativas, cardiovasculares, degenerativas osteoarticulares e inflamatórias. Portugal dispõe de conhecimento e prestígio internacional em qualquer uma destas áreas e vários institutos são regularmente convidados por instituições estrangeiras a dar pareceres. Estruturas como o Ipatimup-Instituto de patologia e Imunologia Molecular e Celular ou Centro de Neurociências de Coimbra são algumas das locomotivas de referência nesta área que poderão dar um contributo decisivo à projecção internacional do projecto. O Ipatimup, por exemplo, é consultado por especialistas do cancro de todo o mundo para efectuar diagnósticos mais complexos, em particular em cancros do estômago.

Fonte: Jornal Expresso de 28 de Março de 2009